Fim de festa, privilégio e fantasia

Artigo de : Joana Cabral, psicóloga e ativista do SOS RACISMO

“Todo o Carnaval tem seu fim”… e com ele vem a hora que despir máscaras e fantasias… Na rua e nas festas desfilam, com frequência, as que “dizem ser” dos índixs e dos africanxs, d@s travestis e das enfermeiras e secretárias assanhadas. Diz-se também do carnaval que “ninguém leva a mal”… Mas talvez esteja na hora de perguntar quão inclusivo é este “ninguém” ou, por outras palavras, quem foi ouvidx para o formar e em que condições, de fala (quem, quantas vezes, quando e como falou/aram) e de escuta (quem, quando, quantas vezes e como ouvimos).

Comecemos por um ponto prévio: sendo branca e nascida na europa, não me considero suficientemente autorizada ou legitimada para falar sobre a questão. Convém que comecemos por aqui. No que diz respeito ao preconceito e à discriminação é preciso ouvir e escutar xs visadxs, sejam elxs negrxs, ciganxs, homens, mulheres, migrantes ou refugiadxs e por aí fora. Peguemos neste exemplo: eu, como mulher, tal como todas as que me leem, algumas como mães ainda mais, sei melhor do que um homem o que é ou não é um comportamento e tratamento machista; o que é ou não é assédio e que formas este assume na rua, num bar ou no local de trabalho. E convém que aqui consideremos o que pensam várias mulheres – as mães, as casadas, as cristãs, as LGBTI, as que escolheram dedicar-se à família e as que andam nómadas pelo mundo fora – e não derivar prescrições morais do que pensam algumas e impondo-o a todas as outras. Para perceber, então, o que sentem as pessoas “retratadas” nas fantasias de carnaval, e se se sentem ou não agredidas ou ofendidas, há que começar por escutá-laS  (ênfase no plural). A mim resta-me partilhar as minhas reflexões e tentar fazer eco do que vou ouvindo daquelxs que passam por isto na primeira pessoa. E, do que escuto e do que leio, as pessoas sentem-se sim gozadas, caricaturadas, vêm a sua identidade apropriada e, pior, distorcida. Recomendo que não tomem a minha palavra como certa. Vão ouví-las e lê-las. É também esta a utilidade das redes sociais e dos média.

Claro que isto não é assim do nada e no vazio. Por detrás dos motivos para esta ofensa, e para as acusações de racismo que têm ouvido, há toda uma história de opressão e discriminação, que não se pode apagar, até porque persiste. A diferença entre uma fantasia de minhota e de africanx ou ciganx (exemplos que tenho visto algumas pessoas comparar) é, por este motivo e muitos outros, enorme. E temos que o assumir. É assim por toda história passada e que ainda se escreve, pela intenção da fantasia e pela posição que a pessoa e o seu grupo de pertença ocupam na sociedade.

No caso da fantasia de “africanx”, há quase sempre recurso a uma versão caricatural, quer das vestes e adornos quer das características físicas. E isso é, inevitavelmente, ofensivo só por si. Mais ainda, de caminho, veiculam-se representações estereotipadas e redutoras do que é ser africanx ou índix, reduzindo toda uma cultura e continentes inteiros a um par de estereótipos carnavalescos e recreativos. Há indixs, asiáticxs e africanxs, alguns nos “seus” continentes, outros espalhados por esse mundo fora, parte delxs na europa e em portugal, que não se vestem assim… uma parte substancial, a bem da verdade. Nós conhecemo-lxs, cruzamos-nos com elxs na rua e no trabalho.

Mesmo assumindo que o retrato pudesse ser fiel, seja lá o que isso quereria dizer, impõe-se uma outra questão… a da posição que os grupos representados ocupam na sociedade. Ninguém, que se saiba, foi alguma vez perseguidx, discriminadx, ofendidx ou agredidx, por ser de Viana do Castelo. Já negrxs, ciganxs, homossexuais, transsexuais e outros LGBTI (também há destas outras fantasias), foram e continuam a ser, frequente, persistente e estruturalmente. Que nós, que não o somos, do conforto da nossa posição, façamos disto diversão não pode ser inconsequente, não pode ser ilibado pela “boa intenção” e “inocência”. Dito de forma mais simples, como disse ontem a uma amiga, não é “uma cena fixe”. O motivo é simples, no fim do dia, acaba a festa, lavamos a cara, sacamos a peruca, tiramos as fatiotas, dormimos sossegadinhxs. E no dia seguinte a vida segue, na “santa paz” que a posição privilegiada que ocupamos nos deu. No entretanto, no melhor dos cenários apropriamos-nos de uma identidade que não é nossa, num cenário menos  benigno fizemos disso piada e, no pior dos cenários, fomos ofensivxs e veículos de preconceito.

Bem sei que estas questões nem sempre nos ocorrem. Sei também que custa quando nos apontam o dedo. Mas isto, a par da defesa acérrima da nossa inocência e da desvalorização a que devotamos as acusações que nos dirigem, é um dos inquestionáveis sintomas da chamada colonialite e do que significa ser parte da sua herança arquitectónica que prevalece no racismo estrutural. Crescendo dentro desta redoma, com todas as distorções que esta impõe, somos demasiadas vezes cegxs ao preconceito, até porque ele nos põe em causa. Mas é por isto mesmo que temos de estar abertxs às perspectivas de quem está do outro lado do vidro.

Aqui ficam algumas das questões que nos devemos colocar, se queremos curar-nos desta crónica patologia colectiva. Assistimos hoje, e felizmente, a uma tão expressiva adesão às críticas dirigidas à actuação do Juiz Neto de Moura (entre outrxs, porque não é x únicx que pratica uma justiça machista, nem x únicx a ser criticadx) e à cumplicidade inoperante de todo o sistema judicial. Ao mesmo tempo e por outro lado, se nos disserem que não podemos fantasiar-nos de africanxs ou de índixs, escurecendo a cara, exagerando os traços e vestindo uns adereços supostamente tribais, “aí já é extremismo”… Estes são alguns dos argumentos que ouço e leio: “quem vê assim a questão é racista e/ou tem o olhar contaminado por uma maldade ou por um fundamentalismo que distorce uma atitude inocente e, que tem intenção de ser, celebratória…. Se fizemos isto tantas vezes e ninguém se incomodou… vêm agora, nesta época de extremos, manchar de maldade esta reverência recreativa à multiculturalidade e à diversidade?”.  Pergunto-me como pode isto não nos dar que pensar?

Acontece que o facto de o termos conseguido fazer durante tanto tempo – usar recreativamente a representação da “raça” -, sem que isso resultasse num estrondoso protesto, não serve como critério para o legitimar e ilibar. Da mesma forma que não podemos tolerar que o facto de, em tempos, se condenarem mulheres adúlteras à fogueira sirva de retórica numa sentença de violência doméstica, também não podemos legitimar e ilibar, retroativamente, o facto de termos explorado e escravizado populações inteiras durante séculos e que fossem precisos tantos anos até que estas práticas se pusessem em causa.

Há, ainda hoje, quem considere que este passado pode ser branqueado e apagado da memória colectiva e que as consequências foram e são menores e que estão totalmente reparadas. Mas, se quisermos ser honestxs, o maior exemplo de que parte destas práticas colonialistas e das suas consequências persistem, sem devida reparação, reside neste facto (este entre tantos outros, porque é recente): termos um sistema de ensino em que xs agentes educativxs (professorxs, manuais e directorxs) continuam a empregar o conceito biológico de “raça” e a reduzir “xs africanxs” – a população de um continente inteiro, acrescida de todxs xs que se espalharam pelo mundo inteiro – a uma amálgama inorgânica, cristalizada e culturalmente monolítica de “selvagens” exotizadxs, escurecidxs, genitália exposta e protuberante, roupas coloridas ou saias de palha, a envergar lanças e outros adereços, que no carnaval se misturam com “divertidos” óculos e perucas coloridas. Considere-se ainda o olhar desqualificante a que assim se sujeitam outras formas de organização social e cultural, que tomamos como referência de estágios civilizacionais menores e menos evoluídos, para compor as múltiplas camadas, de branquitude, eurocentrismo ou paternalismo supremacista, que encerra esta caricatura. E, temos que assumi-lo, estes estereótipos povoam o nosso imaginário e, por isso, os representamos recreativamente no carnaval ou na comédia, às vezes na moda e na publicidade. Se ainda se acha que ensinar e celebrar a diversidade nas escolas é falar das “raças” e fazê-las desfilar em fantasias jocosas de carnaval, como podemos não perguntar-nos como chegamos aqui?

Depois de nos perguntarmos mil vezes quem protege aquelexs para quem a cor da pele, o cabelo, os adereços, o vocabulário e o sotaque, a identidade, a ancestralidade e a origem não são adereços de uma fantasia, mas antes motivo, demasiado simultâneo, de orgulho e resistência e de risco e pretexto, risco e pretexto para tantas e recorrentes formas de violência estrutural e institucional (que vão desde a acusação de vitimismo à morte)… depois de nos colocarmos esta questão mil vezes e de a tornarmos um automatismo consequente, resta-nos ainda uma questão, pelo menos uma: quem é que nos protege, a nós brancxs, da ignorância? Quem nos protege de nos tornarmos alvo de arremesso de acusações de preconceito e de racismo e bodes expiatórios de uma culpa colonialista? A pergunta que há muito se impõe (gritante!) é quem nos protege de sermos herdeirxs da branquite, do manto de obscurantismo e dos viéses que destes decorrem e que nos impõem uma cegueira defensiva e uma ignorância social em relação aos temas da diversidade? Quem nos ensina e aos/às nossxs filhxs sobre o processo de racialização, sobre a “raça” enquanto construção e perpetuação de um sistema social desigual, que protege o que herdamos, por via de séculos de exploração e apropriação, e que tomamos e mantemos como privilégio endógeno?

Temos dúvidas de que é assim? Quando numa escola se ensina sobre as “raças”, como se tivessem validade científica, ignorando décadas de conhecimento científico e evidências que vão da genética e da biologia, à antropologia, sociologia e epidemiologia… quando assim se reduzem a diversidade cultural e todas as suas variações, países, continentes e culturas imensas, ancestrais e actuais, todxs xs que partilham uma origem, pertença ou identidade cultural, veiculando distorções e estereótipos patéticos e à revelia da ofensa e indignação… Chegando aqui, não seria altura de questionarmos porque toleramos fantasias e piadas racistas (se quiserem também machistas e homofóbicas) e insistimos em tê-las como inocentes e inconsequentes? Não terá chegado a altura de nos perguntarmos porque nos custa tanto que nos digam que tudo isto é ofensivo e que não podemos insistir em reclamar o privilégio de o negar? Se “todo o Carnaval tem seu fim”, não terá chegado a hora das fantasias, e do privilégio de as vestir e despir, terem também?

Alguns links para informações e reflexões adicionais:

Jornal Público “A minha etnia não é uma fantasia de Carnaval” de Cristiana Xia Wu

The New York Time “Why White People Need Blackface” by George Yancy


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