AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E O CONFINAMENTO DA COMUNIDADE CIGANA EM CASTRO VERDE

Provavelmente, a maior parte dos cerca de 500 mil eleitores que votaram em André Ventura desconhece o programa do seu partido político. Poderão não saber que o Chega propõe o fim do SNS e do ensino público, ou que pretende terminar com a regra da progressividade nos impostos, aplicando uma taxa única de IRS, com benefícios claros para os mais ricos.

Porém, não haverá vivalma que não conheça o ódio que Ventura tem às comunidades ciganas e imigrantes. Todos os que votaram em Ventura sabem perfeitamente que o mesmo odeia ciganos, que acha que os imigrantes deviam voltar para a sua terra e que os refugiados chegam à Europa com iPads na mão, para viverem à custa do Estado.

E, sabendo isso, por causa disso ou para além disso, escolheram Ventura. É uma escolha consciente e informada. Por isso, quando alguém defende que os votos em Ventura foram apenas uma manifestação de protesto, o que está efetivamente a fazer é proteger e desculpabilizar uma manifestação inequívoca de racismo e xenofobia. E está, uma vez mais, a menosprezar quem sofre com este tipo de discurso. Porque sendo um voto de protesto ou um voto de convicção, quem sofre no final são as comunidades ciganas, negras e imigrantes.

Dias depois das eleições presidenciais, tomámos conhecimento da medida proposta pela Câmara Municipal de Castro Verde e anunciada na sua página de Facebook: estabelecimento de um plano “rigoroso” de confinamento da comunidade cigana residente no concelho, com vigilância da GNR e Proteção Civil, porque se verificaram pessoas da comunidade infetadas com Covid-19.

Como todos sabemos, estes casos confirmados de pessoas infetadas com Covid-19 não são os primeiros desde que a pandemia começou em março de 2020. Porém, é a primeira vez que, perante um grupo de pessoas infetadas, uma Câmara Municipal decide avançar com um plano de confinamento étnico. É, assim, uma medida de segregação étnica, inédita no país. Também vai ser desculpabilizada?

Exigimos assim que a Câmara Municipal de Castro Verde, dirigida pelo Partido Socialista, revogue de imediato esta decisão. E exigimos que as entidades competentes, nomeadamente o Ministério Público, Governo e a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, analisem o sucedido e apliquem a Lei, denunciando e punindo qualquer medida de segregação étnica.

As regras de saúde pública e as decretadas neste confinamento devem ser respeitadas por todos e todas – não se admitem exceções. No entanto, não há nenhum estado de emergência ou pandemia que justifique medidas de segregação étnica

ADENDA: Entretanto, e depois deste comunicado, o município de Castro Verde apagou o post que anunciava a criação de um gueto para a comunidade cigana, com vigilância policial. Mas informa que, hoje, se confirmaram 145 casos positivos de Covid.

Sabemos agora que, perante 17 casos de infectados na comunidade cigana, a Câmara pretendia recorrer a uma medida de apartheid. Mas que nada pretende fazer quanto aos restantes casos.

Sabemos agora que a Câmara de Castro Verde apenas identifica publicamente a etnia dos infetados, quando estes são ciganos.

E sabemos agora também que a Câmara apenas publica nas suas redes sociais as moradas dos infetados, quando os mesmo são ciganos.

Uma vergonha!

26 de janeiro de 2021

SOS Racismo