#AMinhaLutaNãoFazQuarentena

A 21 de março assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, para lembrar que o racismo e a xenofobia, entre outras violências relacionadas com o preconceito e ódio raciais, são uma realidade quotidiana. Foi nesse sentido que escolhemos esta data para o lançamento da campanha #AMinhaLutaNãoFazQuarentena. 

No contexto atual, ficar em casa e evitar o contacto social é a principal orientação para controlar a expansão do Covid-19 e para proteger todas e todos. São circunstâncias difíceis para cada um e cada uma, sem exceção. Se esta situação nos deve unir, não deve ao mesmo tempo fazer-nos esquecer aquilo em que ainda não somos iguais. Quem e quantos e quantas de nós podem ficar em casa? Trabalhar e ver garantida segurança? Pôr alimento na mesa e cuidar da saúde da família? Quantos e quantas têm a certeza de poder garantir os seus rendimentos? Agora é também tempo de relembrar que os/as mais vulneráveis serão também os/as mais atingidos/as no contexto desta pandemia. É, por isso, impossível olhar para o cenário atual sem considerar a desigualdade étnico-racial. 

Para assinalar esta data lançamos o Manifesto #AMinhaLutaNãoFazQuarentena, uma tomada de posição que pretende ser um ponto de partida para o trabalho coletivo e plural, trabalho esse que desejamos transversal a toda a sociedade, mas no qual se pretende, em particular, envolver todos/as aqueles/as que vivem no dia-a-dia a discriminação.

Convidamos todos e todas que se identificam com a luta antirracista a que se apropriem desta hashtag, para partilharem reflexões, propostas de medidas, testemunhos e todos os conteúdos que nestes dias, como nos que virão, nos permitam seguir efetivamente unidos e unidas no caminho de uma sociedade igualitária e diversa.

#AMinhaLutaNãoFazQuarentena

Manifesto #AMinhaLutaNãoFaz… by SOS Racismo on Scribd

Turquia e União Europeia – que (não) respostas às populações refugiadas, requerentes de asilo e migrantes?

Esta semana estamos novamente sobressaltados com a questão dos refugiados que “batem à porta” da Europa.  Como nos posicionamos? Podemos? Queremos? Devemos “abrir a porta”?

Na verdade, esta questão, não é uma questão desta semana (mais concretamente do dia 27.02.2020), tão pouco deste mês ou ano, mas sim fruto de anos de construção de uma “Europa Fortaleza”, que se orgulha de não ter fronteiras internas, mas com crescente policiamento e militarização das suas fronteiras externas. Uma Europa que se assume simultaneamente como berço da democracia e dos direitos humanos, mas que não se escusa a negá-los, quando fora dos seus limites geográficos e relativamente a cidadãos que não reconhece como seus.  

Foi nesta semana, que o estado da Turquia que vinha ciclicamente ameaçando com a quebra do “contrato” hipócrita com a União Europeia (acordo este de 2016 em que se comprometia em não deixar passar refugiados para a Europa, através da Grécia, a troco de ajuda humanitária), decidiu unilateralmente “abrir a porta”. As circunstâncias poderão ter sido precipitadas pela actual e tão prolongada guerra na Síria, em que o estado Turco está envolvido. Isto são apenas algumas das circunstâncias, mas o problema dos refugiados já lá estava, não podemos fechar os olhos. As vagas de refugiados e migrantes sucedem-se em crescendo, em grande medida pelos conflitos armados existentes e que perduram (em que o papel da União Europeia não tem sido inocente, nomeadamente no comércio de armamento), não só na Síria, mas também noutras áreas dessa região, em África, e ainda, por claras e inequívocas questões políticas de exploração crónica e despudorada de muitas das populações de todo o hemisfério Sul. Acresce-se a crise climática, que já se verifica e que se espera que venha significativamente a agravar obrigando, novamente, as populações do hemisfério Sul, a refugiarem-se e a migrar. Também a este nível, a responsabilidade dos estados do Norte é imensa e não pode ser escusada. 

Relativamente à questão concreta dos/as refugiados/as Sírios/as, que já todos percebemos ser apenas uma pequena parte do fenómeno global das relações entre o “Norte” e o “Sul”, a resposta que nos chega é a “ameaça” da Turquia “abrir a porta”, a suspensão da concessão de asilo pelo governo Grego e a intervenção da sua polícia e exércitos com balas reais. 

A nível macro temos a União Europeia a apoiar a postura grega, por outro, a nível local temos os habitantes locais das ilhas gregas a formarem grupos para impedirem diretamente os barcos com refugiados e migrantes de atracar, a impedirem jornalistas e trabalhadores humanitários de circular.

Sabemos que as populações estão naturalmente esgotadas por toda esta situação, com notícias permanentes de sobrelotação dos campos de refugiados instalados nas ilhas do Mediterrâneo e sob um esforço também permanente que sentem que recai apenas sobre si. 

Este contexto, torna o terreno fértil para a proliferação de um crescente discurso xenófobo, racista e de normalização da violação dos direitos humanos considerados mais básicos. 

O resultado são  refugiados, requerentes de asilo e migrantes verem a sua vida ser usada como moeda de negociação e troca em campanhas internas na própria Turquia, Grécia, mas também externas com a União Europeia e, mesmo, com todo o hemisfério Norte. 

Percebemos, pois, que estas não são verdadeiras respostas, – não são respostas para as populações refugiadas, requerentes de asilo ou migrantes e não são respostas para as populações que os acolhem. 

E é urgente procurarmos verdadeiras respostas! 

O SOS Racismo considera que, no imediato, urge garantir a transferência segura das pessoas retidas nas ilhas do mediterrâneo para países europeus, reformular o sistema de asilo para que efetivamente funcione, melhorar as condições de vida nos campos de refugiados e não permitir que se deixem mais pessoas encurraladas em tão terríveis condições.

Como respostas mais de fundo, e não é justo nem desejável adiá-las mais, é fundamental refletir e intervir nas causas a montante (das relações de desigualdade “Norte-Sul”, dos conflitos armados e seu financiamento), planear medidas de prevenção e não só de reação aos fluxos de refugiados, requerentes de asilo e migrantes, estabelecendo corredores de segurança à circulação destas pessoas com efetivas condições de permanência onde se possam em segurança instalar.

Como nos posicionamos? O SOS Racismo considera que devemos “abrir a porta”! Que o mundo que devemos construir é um mundo sem fronteiras e sem exploração.

FESTAS, HUMOR E PRECONCEITO

Neste período de festas académicas, é comum utilizar a sátira como recurso expressivo de denúncia do que se entende dever ser corrigido no meio social em que os seus autores se inserem. Pode visar práticas duma instituição ou alargar-se ao âmbito da sociedade. Pode dirigir-se aos responsáveis, por vezes difusos, pelos atos criticados ou voltar-se para quem parece ficar mais visível na fotografia. A sátira joga com o humor e, como toda a linguagem – utilize ela a escrita, o som ou a imagem – nunca é inocente, designadamente quando constitui determinadas pessoas, atitudes ou contextos bem definidos como alvo da sua mensagem crítica.
Nos últimos dias, dois acontecimentos foram largamente noticiados, pela polémica que desencadearam, ambos no contexto de festas académicas. Em Coimbra, um carro do cortejo da Queima das Fitas esteve projetado para exibir como título a palavra “Alcoholocausto”. Se a intenção dos estudantes era criticar o estado caótico do ensino superior, conforme foi afirmado, não parece muito lógico o parentesco semântico entre esse conceito e ‘a marca’ escolhida. O termo ‘holocausto’ – ainda por cima aglutinado com álcohol – com toda a carga dramática que a história do século XX associou a uma tremenda perseguição e morticínio, de motivação racista, não poderia ser utilizado numa qualquer crítica, por mais destruidora que se pretendesse, à instituição universitária. Assim se pronunciaram, num abaixo-assinado, várias dezenas de professores e professoras da Faculdade de Letras, que denunciaram a ligeireza com que estes alunos e alunas de História estavam a utilizar esta palavra. No mesmo sentido, surgiu uma petição assinada por algumas centenas de cidadãs e cidadãos, promovida por um aluno de doutoramento. Após a intervenção do diretor da Faculdade em diálogo com os e as responsáveis, o título foi retirado do carro, mas mantiveram-se algumas marcas que manifestavam a não aceitação deste juízo crítico sobre a sua mensagem, assimilando-o a ato de censura, apresentando-se alguns/mas jovens, no cortejo, com uma mordaça. De assinalar que a ideia inicial era reproduzir um comboio [imagem indissociável dos campos de concentração nazis] e que, uns meses antes, o mesmo grupo se tinha fotografado com indumentárias insinuando prisioneiros judeus e guardas nazis. De par com isso, foram distribuídos uns folhetos no cortejo, com informações (algumas erradas) sobre esse acontecimento histórico… provavelmente com a intenção de mostrar que estavam dentro do assunto.
Na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, surgiu um caixote com pedras com o seguinte letreiro: “Grátis se for para atirar a um ‘zuca’ (que passou à frente no mestrado).” Isto provocou uma reação forte de estudantes brasileiros, que fizeram uma manifestação em que podia ler-se, entre outras coisas: “Não é piada é xenofobia”. As autoridades da Faculdade manifestaram-se contra quaisquer ações ofensivas de alunos da Faculdade e a Reitoria afirmou abrir um processo disciplinar aos autores do sucedido.
Estes dois atos têm uma marca comum: pretendendo usar a veia satírica para denunciar práticas que não aceitam, estes/as jovens socorrem-se de referências cujo sentido, no mínimo, não questionam, incorrendo, na mais favorável das interpretações, na sua utilização acrítica. Contudo, mesmo assim, não deixam de estar sujeitos a que a sua mensagem seja julgada como atitude cúmplice de toda a agressividade que essas palavras/discursos/contextos transportam. O caso torna-se ainda mais grave se, depois de alertados/as, se comportam como vítimas duma qualquer censura e não reconhecem que, na realidade, teimam em comportar-se como pessoas racistas e xenófobas, na medida em que atribuem e circunscrevem os atos/as situações que criticam a uma determinada comunidade ou ao imaginário que dela foi criado ao longo da história – o que é efetivamente insultuoso.
O racismo e a xenofobia visam mesmo isso: naturalizar atitudes, comportamentos e juízos de valor, atribuindo-os a determinados grupos predefinidos e transformando-os em marcas distintivas essenciais das pessoas que os integram. Chama-se a isso criar e alimentar o preconceito. Os caminhos para lá chegar são variados. Um deles pode ser o humor acrítico.

Coimbra, 10 de Maio de 2019

José João Lucas
SOS Racismo

Comunicado de imprensa – Balanço Grupo de Trabalho Censos 2021

Balanço Grupo de Trabalho Censos 2021

O SOS Racismo integrou o Grupo de Trabalho Censos 2021 – Questões “Étnico-Raciais” (GT), criado pelo Despacho n.º 7363/2018, que reuniu durante um ano e entregou ontem o resultado do seu trabalho à tutela.  No relatório entregue, para além de várias recomendações bastante positivas com as quais concordamos, há que destacar aquela que se refere à introdução no formulário final dos Censos 2021 da pergunta sobre a pertença étnico-racial. Destacamos esta recomendação por considerar que ela é a única capaz de garantir mais vantagens e potencialidades para retratar de forma mais eficaz a composição étnico-racial do país e ser o melhor instrumento para alavancar políticas públicas de combate às desigualdades raciais. O SOS Racismo regozija-se pelo fato desta ter sido a principal e inequívoca recomendação e que obteve uma clara maioria dos membros do grupo de trabalho. É também motivo de satisfação o facto de os resultados da sondagem encomendada para efeito refletirem uma adesão da maioria da população à conclusão do Grupo de Trabalho, estando ainda alinhada esta circunstância com os resultados obtidos nos focas-grupos realizados entre as comunidades racializadas. O SOS não tem dúvidas que o INE, pela sua larga experiência e comprovada competência técnica, encontrará a melhor tradução técnica da recomendação principal deste grupo de trabalho. 

Concluída esta primeira etapa do percurso sobre a introdução da pertença étnico-racial nos censos, pela qual reiteramos a nossa satisfação, não podemos deixar de chamar a atenção para os vários desafios que nos esperam a partir de agora e que estão bem elencados nas recomendações ao Conselho Superior de Estatísticas e à Tutela. À tutela cabe assegurar que as recomendações deste grupo de trabalho que vão ao encontro das reivindicações dos movimentos e das recomendações dos organismos nacionais e internacionais serão efetivamente concretizadas. Uma campanha de sensibilização que, para além de responder às legitimas preocupações que a questão levanta, desconstrua todos os mitos em torno da introdução desta questão nos censos, que é de uma grande importância. Cabe ainda a tutela corresponder à necessidade identificada de um organismo público independente, com capacidade e competência administrativa e poder de execução de políticas públicas de combate ao racismo. Todas as instituições envolvidas neste processo, terão, nomeadamente, de se comprometer em assumir que o combate contra o racismo é um designo nacional e não se poderá fazer sem as comunidades racializadas nem com medidas avulsas que se limitam a estratégias paliativas que não atacam o caracter estrutural do racismo na sociedade portuguesa. Este compromisso passará naturalmente pela adoção de medidas de ação afirmativas nas áreas chaves das funções do Estado, à imagem do que sucede com as questões de género e de deficiência, por exemplo. Em suma, o SOS Racismo revê-se em todas as recomendações deste grupo de trabalho que  fortalecem o compromisso do Estado em assumir o combate contra o racismo como uma prioridade politica. 

SOS Racismo

04 de abril de 2019

Fim de festa, privilégio e fantasia

Artigo de : Joana Cabral, psicóloga e ativista do SOS RACISMO

“Todo o Carnaval tem seu fim”… e com ele vem a hora que despir máscaras e fantasias… Na rua e nas festas desfilam, com frequência, as que “dizem ser” dos índixs e dos africanxs, d@s travestis e das enfermeiras e secretárias assanhadas. Diz-se também do carnaval que “ninguém leva a mal”… Mas talvez esteja na hora de perguntar quão inclusivo é este “ninguém” ou, por outras palavras, quem foi ouvidx para o formar e em que condições, de fala (quem, quantas vezes, quando e como falou/aram) e de escuta (quem, quando, quantas vezes e como ouvimos).

Comecemos por um ponto prévio: sendo branca e nascida na europa, não me considero suficientemente autorizada ou legitimada para falar sobre a questão. Convém que comecemos por aqui. No que diz respeito ao preconceito e à discriminação é preciso ouvir e escutar xs visadxs, sejam elxs negrxs, ciganxs, homens, mulheres, migrantes ou refugiadxs e por aí fora. Peguemos neste exemplo: eu, como mulher, tal como todas as que me leem, algumas como mães ainda mais, sei melhor do que um homem o que é ou não é um comportamento e tratamento machista; o que é ou não é assédio e que formas este assume na rua, num bar ou no local de trabalho. E convém que aqui consideremos o que pensam várias mulheres – as mães, as casadas, as cristãs, as LGBTI, as que escolheram dedicar-se à família e as que andam nómadas pelo mundo fora – e não derivar prescrições morais do que pensam algumas e impondo-o a todas as outras. Para perceber, então, o que sentem as pessoas “retratadas” nas fantasias de carnaval, e se se sentem ou não agredidas ou ofendidas, há que começar por escutá-laS  (ênfase no plural). A mim resta-me partilhar as minhas reflexões e tentar fazer eco do que vou ouvindo daquelxs que passam por isto na primeira pessoa. E, do que escuto e do que leio, as pessoas sentem-se sim gozadas, caricaturadas, vêm a sua identidade apropriada e, pior, distorcida. Recomendo que não tomem a minha palavra como certa. Vão ouví-las e lê-las. É também esta a utilidade das redes sociais e dos média.

Claro que isto não é assim do nada e no vazio. Por detrás dos motivos para esta ofensa, e para as acusações de racismo que têm ouvido, há toda uma história de opressão e discriminação, que não se pode apagar, até porque persiste. A diferença entre uma fantasia de minhota e de africanx ou ciganx (exemplos que tenho visto algumas pessoas comparar) é, por este motivo e muitos outros, enorme. E temos que o assumir. É assim por toda história passada e que ainda se escreve, pela intenção da fantasia e pela posição que a pessoa e o seu grupo de pertença ocupam na sociedade.

No caso da fantasia de “africanx”, há quase sempre recurso a uma versão caricatural, quer das vestes e adornos quer das características físicas. E isso é, inevitavelmente, ofensivo só por si. Mais ainda, de caminho, veiculam-se representações estereotipadas e redutoras do que é ser africanx ou índix, reduzindo toda uma cultura e continentes inteiros a um par de estereótipos carnavalescos e recreativos. Há indixs, asiáticxs e africanxs, alguns nos “seus” continentes, outros espalhados por esse mundo fora, parte delxs na europa e em portugal, que não se vestem assim… uma parte substancial, a bem da verdade. Nós conhecemo-lxs, cruzamos-nos com elxs na rua e no trabalho.

Mesmo assumindo que o retrato pudesse ser fiel, seja lá o que isso quereria dizer, impõe-se uma outra questão… a da posição que os grupos representados ocupam na sociedade. Ninguém, que se saiba, foi alguma vez perseguidx, discriminadx, ofendidx ou agredidx, por ser de Viana do Castelo. Já negrxs, ciganxs, homossexuais, transsexuais e outros LGBTI (também há destas outras fantasias), foram e continuam a ser, frequente, persistente e estruturalmente. Que nós, que não o somos, do conforto da nossa posição, façamos disto diversão não pode ser inconsequente, não pode ser ilibado pela “boa intenção” e “inocência”. Dito de forma mais simples, como disse ontem a uma amiga, não é “uma cena fixe”. O motivo é simples, no fim do dia, acaba a festa, lavamos a cara, sacamos a peruca, tiramos as fatiotas, dormimos sossegadinhxs. E no dia seguinte a vida segue, na “santa paz” que a posição privilegiada que ocupamos nos deu. No entretanto, no melhor dos cenários apropriamos-nos de uma identidade que não é nossa, num cenário menos  benigno fizemos disso piada e, no pior dos cenários, fomos ofensivxs e veículos de preconceito.

Bem sei que estas questões nem sempre nos ocorrem. Sei também que custa quando nos apontam o dedo. Mas isto, a par da defesa acérrima da nossa inocência e da desvalorização a que devotamos as acusações que nos dirigem, é um dos inquestionáveis sintomas da chamada colonialite e do que significa ser parte da sua herança arquitectónica que prevalece no racismo estrutural. Crescendo dentro desta redoma, com todas as distorções que esta impõe, somos demasiadas vezes cegxs ao preconceito, até porque ele nos põe em causa. Mas é por isto mesmo que temos de estar abertxs às perspectivas de quem está do outro lado do vidro.

Aqui ficam algumas das questões que nos devemos colocar, se queremos curar-nos desta crónica patologia colectiva. Assistimos hoje, e felizmente, a uma tão expressiva adesão às críticas dirigidas à actuação do Juiz Neto de Moura (entre outrxs, porque não é x únicx que pratica uma justiça machista, nem x únicx a ser criticadx) e à cumplicidade inoperante de todo o sistema judicial. Ao mesmo tempo e por outro lado, se nos disserem que não podemos fantasiar-nos de africanxs ou de índixs, escurecendo a cara, exagerando os traços e vestindo uns adereços supostamente tribais, “aí já é extremismo”… Estes são alguns dos argumentos que ouço e leio: “quem vê assim a questão é racista e/ou tem o olhar contaminado por uma maldade ou por um fundamentalismo que distorce uma atitude inocente e, que tem intenção de ser, celebratória…. Se fizemos isto tantas vezes e ninguém se incomodou… vêm agora, nesta época de extremos, manchar de maldade esta reverência recreativa à multiculturalidade e à diversidade?”.  Pergunto-me como pode isto não nos dar que pensar?

Acontece que o facto de o termos conseguido fazer durante tanto tempo – usar recreativamente a representação da “raça” -, sem que isso resultasse num estrondoso protesto, não serve como critério para o legitimar e ilibar. Da mesma forma que não podemos tolerar que o facto de, em tempos, se condenarem mulheres adúlteras à fogueira sirva de retórica numa sentença de violência doméstica, também não podemos legitimar e ilibar, retroativamente, o facto de termos explorado e escravizado populações inteiras durante séculos e que fossem precisos tantos anos até que estas práticas se pusessem em causa.

Há, ainda hoje, quem considere que este passado pode ser branqueado e apagado da memória colectiva e que as consequências foram e são menores e que estão totalmente reparadas. Mas, se quisermos ser honestxs, o maior exemplo de que parte destas práticas colonialistas e das suas consequências persistem, sem devida reparação, reside neste facto (este entre tantos outros, porque é recente): termos um sistema de ensino em que xs agentes educativxs (professorxs, manuais e directorxs) continuam a empregar o conceito biológico de “raça” e a reduzir “xs africanxs” – a população de um continente inteiro, acrescida de todxs xs que se espalharam pelo mundo inteiro – a uma amálgama inorgânica, cristalizada e culturalmente monolítica de “selvagens” exotizadxs, escurecidxs, genitália exposta e protuberante, roupas coloridas ou saias de palha, a envergar lanças e outros adereços, que no carnaval se misturam com “divertidos” óculos e perucas coloridas. Considere-se ainda o olhar desqualificante a que assim se sujeitam outras formas de organização social e cultural, que tomamos como referência de estágios civilizacionais menores e menos evoluídos, para compor as múltiplas camadas, de branquitude, eurocentrismo ou paternalismo supremacista, que encerra esta caricatura. E, temos que assumi-lo, estes estereótipos povoam o nosso imaginário e, por isso, os representamos recreativamente no carnaval ou na comédia, às vezes na moda e na publicidade. Se ainda se acha que ensinar e celebrar a diversidade nas escolas é falar das “raças” e fazê-las desfilar em fantasias jocosas de carnaval, como podemos não perguntar-nos como chegamos aqui?

Depois de nos perguntarmos mil vezes quem protege aquelexs para quem a cor da pele, o cabelo, os adereços, o vocabulário e o sotaque, a identidade, a ancestralidade e a origem não são adereços de uma fantasia, mas antes motivo, demasiado simultâneo, de orgulho e resistência e de risco e pretexto, risco e pretexto para tantas e recorrentes formas de violência estrutural e institucional (que vão desde a acusação de vitimismo à morte)… depois de nos colocarmos esta questão mil vezes e de a tornarmos um automatismo consequente, resta-nos ainda uma questão, pelo menos uma: quem é que nos protege, a nós brancxs, da ignorância? Quem nos protege de nos tornarmos alvo de arremesso de acusações de preconceito e de racismo e bodes expiatórios de uma culpa colonialista? A pergunta que há muito se impõe (gritante!) é quem nos protege de sermos herdeirxs da branquite, do manto de obscurantismo e dos viéses que destes decorrem e que nos impõem uma cegueira defensiva e uma ignorância social em relação aos temas da diversidade? Quem nos ensina e aos/às nossxs filhxs sobre o processo de racialização, sobre a “raça” enquanto construção e perpetuação de um sistema social desigual, que protege o que herdamos, por via de séculos de exploração e apropriação, e que tomamos e mantemos como privilégio endógeno?

Temos dúvidas de que é assim? Quando numa escola se ensina sobre as “raças”, como se tivessem validade científica, ignorando décadas de conhecimento científico e evidências que vão da genética e da biologia, à antropologia, sociologia e epidemiologia… quando assim se reduzem a diversidade cultural e todas as suas variações, países, continentes e culturas imensas, ancestrais e actuais, todxs xs que partilham uma origem, pertença ou identidade cultural, veiculando distorções e estereótipos patéticos e à revelia da ofensa e indignação… Chegando aqui, não seria altura de questionarmos porque toleramos fantasias e piadas racistas (se quiserem também machistas e homofóbicas) e insistimos em tê-las como inocentes e inconsequentes? Não terá chegado a altura de nos perguntarmos porque nos custa tanto que nos digam que tudo isto é ofensivo e que não podemos insistir em reclamar o privilégio de o negar? Se “todo o Carnaval tem seu fim”, não terá chegado a hora das fantasias, e do privilégio de as vestir e despir, terem também?

Alguns links para informações e reflexões adicionais:

Jornal Público “A minha etnia não é uma fantasia de Carnaval” de Cristiana Xia Wu

The New York Time “Why White People Need Blackface” by George Yancy


Plataforma estudantil EnsinaTE

O objetivo do EnsinaTE é ajudar jovens estudantes com o seu percurso escolar, e equipá-los para o mundo de trabalho. Fazemos isto através de varios textos com dicas!

Sendo o EnsinaTE uma plataforma que promove a educação não podíamos ficar indiferente ao que se têm passado em Portugal nos últimos dias. Foi então que resolvemos perguntar aos nossos seguidores jovens estudantes, sobre as experiências racistas que já passaram ou passam no seu dia a dia. 
Falamos tanto com, leitores negros e brancos e construímos o seguinte texto: Exclusão racial- Jovens estudantes pronunciam-se sobre o bairro Jamaica.
O racismo é algo que existe e deve ser discutido abertamente para que possamos eliminá-lo e nada melhor do que começar o discussão com os jovens.

AGRESSÕES NO BAIRRO DA JAMAICA NÃO PODEM FICAR IMPUNES


Circula nas redes sociais um vídeo que mostra violentas agressões perpetradas por agentes da PSP contra uma família no Bairro da Jamaica no concelho de Seixal. Independentemente do contexto e das circunstâncias em que ocorreram, num estado de direito, onde a integridade física e moral das pessoas é inviolável, estas agressões são absolutamente injustificáveis e inaceitáveis.

O SOS Racismo, tendo-se deslocado ao bairro e ouvido os testemunhos das próprias vítimas e dos cidadãos que presenciaram a intervenção da polícia, só pode condenar veementemente a atuação da PSP e exigir naturalmente o apuramento das responsabilidades.

Perante o sucedido, há que lembrar que esta forma de intervenção que assistimos hoje no Bairro da Jamaica por parte das forças policiais não é inédito nem é mais um caso isolado. Este comportamento dos agentes que agrediram aquela família revela um modus operandi enraizado nas intervenções das forças de segurança nos bairros habitados por Negros e Ciganos. O que não pode continuar. Reafirmamos que, independentemente das circunstâncias e dos contornos em que aconteceu o caso, não se poderão repetir os habituais procedimentos que consistem, de forma expedita, em procurar ilibar os agentes e incriminar as vítimas, com recurso à figura do julgamento sumário. É de elementar justiça e interesse público permitir que se esclareça tudo o que há por esclarecer neste caso e que se apurem responsabilidades, tomando as consequentes medidas punitivas que se impõem. 

Perante isto e para que se faça justiça, o SOS Racismo irá apresentar queixa ao Ministério Público. A sociedade e as instituições públicas, nomeadamente, os serviços de segurança e de justiçam devem assumir a responsabilidade de garantir que o racismo que alberga a violência policial não é aceitável e não pode continuar impune.

SOS Racismo
20 de janeiro de 2019