Quinta da Fonte: nenhum ruído pode impedir o debate que se impõe

Convém, antes de mais, deixar claro que o SOS Racismo não se pronunciou sobre a Quinta da Fonte no calor dos acontecimentos, não por procurar fugir da suposta questão racial subjacente, mas porque e como aliás, vai sendo assumido pelos próprios moradores e todas as instituições e actores sociais que trabalham no terreno, por julgar que não se tratou substancialmente de uma questão de violência racial entre as comunidades do bairro, como muitos pretendem fazer passar a ideia. Foi uma desavença que ocorreu ali como podia ter ocorrido em qualquer lugar do país com as mesmas características; sendo porém evidente que neste caso em concreto, as tensões que existem entre as comunidades não estão verdadeiramente arreigadas no racismo ordinário como o conhecemos, mas antes numa tensão social resultante das degradadas condições de vida do moradores do bairro, sejam eles de que etnia for. Sobre isto, a história já está suficientemente contada e ainda por cima pelos próprios envolvidos e portanto, nada mais a acrescentar. E mais, se dúvidas ainda subsistissem quanto à falsidade da tese racista, elas foram dissipadas pela entrevista dada pelo Presidente do Agrupamento de Escolas da Apelação, Dr. Félix Bolaño à Renascença e ao Público colocando os problemas no seu devido lugar.
Mas se por um lado, o SOS Racismo nunca pretendeu defender a imunidade de qualquer sociedade ou cultura ao racismo, por outro lado, não pactuamos, de maneira nenhuma, com todo o ruído que procura impedir a verdadeira discussão das causas que estão na origem dos problemas no bairros sociais, como por exemplo, a guetização das minorias, consequência da sua discriminação institucional.
O que importa discutir são as políticas que estão na origem das miseráveis condições de vida nos bairros sociais e no caso em apreço, na Quinta da Fonte.
Aliás, o senhor Presidente da Câmara de Loures reconhece que o realojamento da Quinta da Fonte foi um erro, mas persiste no mesmo erro ao querer realojar no mesmo bairro e à sua revelia, os moradores do Bairro do Talude! O Senhor Presidente vem dizer que existem muitas rendas em atraso, quando a primeira medida que tomou, mal tomou posse, foi tentar aumentar exponencialmente e de forma indiscriminada as rendas dos bairros sociais! Só não o conseguiu porque enfrentou a mobilização dos moradores!
Alguns políticos vêem agora derramar lágrimas de crocodilos ao falar na degradação do edificado e na falta de infra-estruturas, quando o SOS Racismo, já em Maio de 1999 (vide Público, Capital e Diário de Noticias do 7 de Maio de 1999), alertava para a incúria das autoridades municipais e centrais na adjudicação da obra para a construção do Bairro da Quinta da Fonte! Já nessa altura, havia problemas com o sistema de saneamento, nomeadamente dos esgotos! Esta obra, como aliás a maior parte das obras de bairros sociais, são feita contra todas as regras de urbanismo e de arquitectura. Porque, neste caso por exemplo e, em muitos casos de construção de bairros de realojamento, as necessárias fiscalizações foram omissas, a qualidade dos materiais de construção deixam muito a desejar e o envolvimento dos visados foi nulo.
As políticas de realojamento basearam-se sempre em remendos em vez de assentar numa organização territorial que permitisse uma gestão democrática do território que fomentasse a convivência de todos os grupos étnicos em igualdade de circunstância! A filosofia política dos bairros de realojamento foi substituir barracas de latas por barracas de betão!
Portanto, querer situar os acontecimentos da Quinta da Fonte numa suposta questão racista entre comunidades é querer tapar o sol com a peneira, porque o que acontece na Quinta do Conde, no Porto, na Bela Vista, em Setúbal, nas Maraianas em Carcavelos, em Santa Filomena, na Amadora, na Quinta da Torrinha, na Ameixoeira, etc., etc., não é em nada diferente dos últimos acontecimentos e não são manifestações de racismo, convenhamo-nos!
Pois, daria jeito a muita gente atiçar o conflito das vítimas do racismo quotidiano para legitimar as suas barbáries e desculpar-se dos seus pecados! Se até os pretos, os ciganos, os pobres, são racistas, porque não assumir a inevitabilidade do racismo, pensarão assim muitos pseudo politicamente incorrectos!
O SOS Racismo nunca pactuou com qualquer espécie de violência e muito menos com o racismo, venha ele donde vier, no entanto, que fique claro, nenhum ruído nos impedirá de apontar o dedo aos responsáveis da situação que se vive nos bairros sociais: os políticos dos sucessivos executivos governamentais e camarários que, numa clara política de segregação espacial, empurraram as minorias étnicas em guetos sem condições nenhumas.
Comunicado de imprensa do SOS RACISMO