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Comunicado de imprensa – Balanço Grupo de Trabalho Censos 2021

Balanço Grupo de Trabalho Censos 2021

O SOS Racismo integrou o Grupo de Trabalho Censos 2021 – Questões “Étnico-Raciais” (GT), criado pelo Despacho n.º 7363/2018, que reuniu durante um ano e entregou ontem o resultado do seu trabalho à tutela.  No relatório entregue, para além de várias recomendações bastante positivas com as quais concordamos, há que destacar aquela que se refere à introdução no formulário final dos Censos 2021 da pergunta sobre a pertença étnico-racial. Destacamos esta recomendação por considerar que ela é a única capaz de garantir mais vantagens e potencialidades para retratar de forma mais eficaz a composição étnico-racial do país e ser o melhor instrumento para alavancar políticas públicas de combate às desigualdades raciais. O SOS Racismo regozija-se pelo fato desta ter sido a principal e inequívoca recomendação e que obteve uma clara maioria dos membros do grupo de trabalho. É também motivo de satisfação o facto de os resultados da sondagem encomendada para efeito refletirem uma adesão da maioria da população à conclusão do Grupo de Trabalho, estando ainda alinhada esta circunstância com os resultados obtidos nos focas-grupos realizados entre as comunidades racializadas. O SOS não tem dúvidas que o INE, pela sua larga experiência e comprovada competência técnica, encontrará a melhor tradução técnica da recomendação principal deste grupo de trabalho. 

Concluída esta primeira etapa do percurso sobre a introdução da pertença étnico-racial nos censos, pela qual reiteramos a nossa satisfação, não podemos deixar de chamar a atenção para os vários desafios que nos esperam a partir de agora e que estão bem elencados nas recomendações ao Conselho Superior de Estatísticas e à Tutela. À tutela cabe assegurar que as recomendações deste grupo de trabalho que vão ao encontro das reivindicações dos movimentos e das recomendações dos organismos nacionais e internacionais serão efetivamente concretizadas. Uma campanha de sensibilização que, para além de responder às legitimas preocupações que a questão levanta, desconstrua todos os mitos em torno da introdução desta questão nos censos, que é de uma grande importância. Cabe ainda a tutela corresponder à necessidade identificada de um organismo público independente, com capacidade e competência administrativa e poder de execução de políticas públicas de combate ao racismo. Todas as instituições envolvidas neste processo, terão, nomeadamente, de se comprometer em assumir que o combate contra o racismo é um designo nacional e não se poderá fazer sem as comunidades racializadas nem com medidas avulsas que se limitam a estratégias paliativas que não atacam o caracter estrutural do racismo na sociedade portuguesa. Este compromisso passará naturalmente pela adoção de medidas de ação afirmativas nas áreas chaves das funções do Estado, à imagem do que sucede com as questões de género e de deficiência, por exemplo. Em suma, o SOS Racismo revê-se em todas as recomendações deste grupo de trabalho que  fortalecem o compromisso do Estado em assumir o combate contra o racismo como uma prioridade politica. 

SOS Racismo

04 de abril de 2019

Comunicado de imprensa a propósito das declarações de Rui Santos

No passado dia 19 de Março o SOS Racismo, como o país inteiro, foi confrontado com as declarações do comentador desportivo Rui Santos a respeito do jogador de futebol Dyego Sousa. No programa televisivo Tempo Extra, emitido na SIC Notícias, este comentador questionou o lugar do referido jogador na Seleção Nacional, por considerar que é necessário que a Seleção garanta “cuidados em relação ao jogador português bacteriologicamente puro”. 

As declarações de Rui Santos revelam um discurso de conteúdo inequivocamente racista e xenófobo, que infelizmente não é caso único na comunicação social, nomeadamente nos espaços dedicados ao comentário desportivo. Tais declarações parecem ignorar que Dyego Sousa, natural do Brasil, tendo dupla nacionalidade – brasileira e portuguesa – desde 2016, se encontra legitimado a representar Portugal na sua Seleção, de resto como qualquer outro jogador com nacionalidade portuguesa. Mais grave ainda, o uso da expressão “bactereologicamente puro” evoca uma representação biológica da “raça” ou ascendência que, além de cientificamente ultrapassada, é um veículo explícito de ofensa e preconceito. 

No contexto nacional em que vivemos, com importantes problemas de racismo e de xenofobia, as declarações de Rui Santos devem ser denunciadas e veementemente repudiadas. 

O SOS Racismo irá apresentar a competente queixa à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, bem como à Entidade Reguladora da Comunicação Social, exigindo consequência e firmeza na condenação, e bom senso e sentido de responsabilidade aos diferentes actores da comunicação social, de modo a assegurar que estes não sirvam como veículos para alimentar preconceitos e para legitimar, uma vez mais, práticas e discursos xenófobos ou racistas.

Ascensão da extrema-direita: Qual o papel dos media tradicionais, redes sociais e fake news na construção do discurso populista?

Estaremos à porta de uma nova era? Olhamos o outro com maior desconfiança? Sentimos como crescente o descrédito daqueles que (não) nos representam? É este provavelmente o terreno onde se desenvolvem muitas das ideias e propostas a que assistimos com declarada inspiração autoritária, intolerante e demagógica, algumas identificadas com projectos de extrema direita. E que mecanismos favorecem a sua disseminação? Qual o papel dos media tradicionais, redes sociais e fake news? 

O SOS Racismo propõe-se contribuir para o debate desta realidade, tornando-nos a tod@s mais capazes de identificarmos, resistirmos e desenvolvermos alternativas às propostas de medo, intolerância e violência destes projectos. Convidamos tod@s a participarem no debate “Ascensão da extrema-direita: qual o papel dos media tradicionais, redes sociais e fake news na construção do discurso populista?” a realizar no próximo dia 30 de Março, às 17h no espaço OKNA no Porto. Contaremos com as reflexões e discussão de Riccardo Marchi, investigador na área dos fenómenos de extrema direita, bem como, Paulo Pena e Ricardo Esteves Ribeiro, jornalistas com experiências distintas na área da comunicação social.

Fim de festa, privilégio e fantasia

Artigo de : Joana Cabral, psicóloga e ativista do SOS RACISMO

“Todo o Carnaval tem seu fim”… e com ele vem a hora que despir máscaras e fantasias… Na rua e nas festas desfilam, com frequência, as que “dizem ser” dos índixs e dos africanxs, d@s travestis e das enfermeiras e secretárias assanhadas. Diz-se também do carnaval que “ninguém leva a mal”… Mas talvez esteja na hora de perguntar quão inclusivo é este “ninguém” ou, por outras palavras, quem foi ouvidx para o formar e em que condições, de fala (quem, quantas vezes, quando e como falou/aram) e de escuta (quem, quando, quantas vezes e como ouvimos).

Comecemos por um ponto prévio: sendo branca e nascida na europa, não me considero suficientemente autorizada ou legitimada para falar sobre a questão. Convém que comecemos por aqui. No que diz respeito ao preconceito e à discriminação é preciso ouvir e escutar xs visadxs, sejam elxs negrxs, ciganxs, homens, mulheres, migrantes ou refugiadxs e por aí fora. Peguemos neste exemplo: eu, como mulher, tal como todas as que me leem, algumas como mães ainda mais, sei melhor do que um homem o que é ou não é um comportamento e tratamento machista; o que é ou não é assédio e que formas este assume na rua, num bar ou no local de trabalho. E convém que aqui consideremos o que pensam várias mulheres – as mães, as casadas, as cristãs, as LGBTI, as que escolheram dedicar-se à família e as que andam nómadas pelo mundo fora – e não derivar prescrições morais do que pensam algumas e impondo-o a todas as outras. Para perceber, então, o que sentem as pessoas “retratadas” nas fantasias de carnaval, e se se sentem ou não agredidas ou ofendidas, há que começar por escutá-laS  (ênfase no plural). A mim resta-me partilhar as minhas reflexões e tentar fazer eco do que vou ouvindo daquelxs que passam por isto na primeira pessoa. E, do que escuto e do que leio, as pessoas sentem-se sim gozadas, caricaturadas, vêm a sua identidade apropriada e, pior, distorcida. Recomendo que não tomem a minha palavra como certa. Vão ouví-las e lê-las. É também esta a utilidade das redes sociais e dos média.

Claro que isto não é assim do nada e no vazio. Por detrás dos motivos para esta ofensa, e para as acusações de racismo que têm ouvido, há toda uma história de opressão e discriminação, que não se pode apagar, até porque persiste. A diferença entre uma fantasia de minhota e de africanx ou ciganx (exemplos que tenho visto algumas pessoas comparar) é, por este motivo e muitos outros, enorme. E temos que o assumir. É assim por toda história passada e que ainda se escreve, pela intenção da fantasia e pela posição que a pessoa e o seu grupo de pertença ocupam na sociedade.

No caso da fantasia de “africanx”, há quase sempre recurso a uma versão caricatural, quer das vestes e adornos quer das características físicas. E isso é, inevitavelmente, ofensivo só por si. Mais ainda, de caminho, veiculam-se representações estereotipadas e redutoras do que é ser africanx ou índix, reduzindo toda uma cultura e continentes inteiros a um par de estereótipos carnavalescos e recreativos. Há indixs, asiáticxs e africanxs, alguns nos “seus” continentes, outros espalhados por esse mundo fora, parte delxs na europa e em portugal, que não se vestem assim… uma parte substancial, a bem da verdade. Nós conhecemo-lxs, cruzamos-nos com elxs na rua e no trabalho.

Mesmo assumindo que o retrato pudesse ser fiel, seja lá o que isso quereria dizer, impõe-se uma outra questão… a da posição que os grupos representados ocupam na sociedade. Ninguém, que se saiba, foi alguma vez perseguidx, discriminadx, ofendidx ou agredidx, por ser de Viana do Castelo. Já negrxs, ciganxs, homossexuais, transsexuais e outros LGBTI (também há destas outras fantasias), foram e continuam a ser, frequente, persistente e estruturalmente. Que nós, que não o somos, do conforto da nossa posição, façamos disto diversão não pode ser inconsequente, não pode ser ilibado pela “boa intenção” e “inocência”. Dito de forma mais simples, como disse ontem a uma amiga, não é “uma cena fixe”. O motivo é simples, no fim do dia, acaba a festa, lavamos a cara, sacamos a peruca, tiramos as fatiotas, dormimos sossegadinhxs. E no dia seguinte a vida segue, na “santa paz” que a posição privilegiada que ocupamos nos deu. No entretanto, no melhor dos cenários apropriamos-nos de uma identidade que não é nossa, num cenário menos  benigno fizemos disso piada e, no pior dos cenários, fomos ofensivxs e veículos de preconceito.

Bem sei que estas questões nem sempre nos ocorrem. Sei também que custa quando nos apontam o dedo. Mas isto, a par da defesa acérrima da nossa inocência e da desvalorização a que devotamos as acusações que nos dirigem, é um dos inquestionáveis sintomas da chamada colonialite e do que significa ser parte da sua herança arquitectónica que prevalece no racismo estrutural. Crescendo dentro desta redoma, com todas as distorções que esta impõe, somos demasiadas vezes cegxs ao preconceito, até porque ele nos põe em causa. Mas é por isto mesmo que temos de estar abertxs às perspectivas de quem está do outro lado do vidro.

Aqui ficam algumas das questões que nos devemos colocar, se queremos curar-nos desta crónica patologia colectiva. Assistimos hoje, e felizmente, a uma tão expressiva adesão às críticas dirigidas à actuação do Juiz Neto de Moura (entre outrxs, porque não é x únicx que pratica uma justiça machista, nem x únicx a ser criticadx) e à cumplicidade inoperante de todo o sistema judicial. Ao mesmo tempo e por outro lado, se nos disserem que não podemos fantasiar-nos de africanxs ou de índixs, escurecendo a cara, exagerando os traços e vestindo uns adereços supostamente tribais, “aí já é extremismo”… Estes são alguns dos argumentos que ouço e leio: “quem vê assim a questão é racista e/ou tem o olhar contaminado por uma maldade ou por um fundamentalismo que distorce uma atitude inocente e, que tem intenção de ser, celebratória…. Se fizemos isto tantas vezes e ninguém se incomodou… vêm agora, nesta época de extremos, manchar de maldade esta reverência recreativa à multiculturalidade e à diversidade?”.  Pergunto-me como pode isto não nos dar que pensar?

Acontece que o facto de o termos conseguido fazer durante tanto tempo – usar recreativamente a representação da “raça” -, sem que isso resultasse num estrondoso protesto, não serve como critério para o legitimar e ilibar. Da mesma forma que não podemos tolerar que o facto de, em tempos, se condenarem mulheres adúlteras à fogueira sirva de retórica numa sentença de violência doméstica, também não podemos legitimar e ilibar, retroativamente, o facto de termos explorado e escravizado populações inteiras durante séculos e que fossem precisos tantos anos até que estas práticas se pusessem em causa.

Há, ainda hoje, quem considere que este passado pode ser branqueado e apagado da memória colectiva e que as consequências foram e são menores e que estão totalmente reparadas. Mas, se quisermos ser honestxs, o maior exemplo de que parte destas práticas colonialistas e das suas consequências persistem, sem devida reparação, reside neste facto (este entre tantos outros, porque é recente): termos um sistema de ensino em que xs agentes educativxs (professorxs, manuais e directorxs) continuam a empregar o conceito biológico de “raça” e a reduzir “xs africanxs” – a população de um continente inteiro, acrescida de todxs xs que se espalharam pelo mundo inteiro – a uma amálgama inorgânica, cristalizada e culturalmente monolítica de “selvagens” exotizadxs, escurecidxs, genitália exposta e protuberante, roupas coloridas ou saias de palha, a envergar lanças e outros adereços, que no carnaval se misturam com “divertidos” óculos e perucas coloridas. Considere-se ainda o olhar desqualificante a que assim se sujeitam outras formas de organização social e cultural, que tomamos como referência de estágios civilizacionais menores e menos evoluídos, para compor as múltiplas camadas, de branquitude, eurocentrismo ou paternalismo supremacista, que encerra esta caricatura. E, temos que assumi-lo, estes estereótipos povoam o nosso imaginário e, por isso, os representamos recreativamente no carnaval ou na comédia, às vezes na moda e na publicidade. Se ainda se acha que ensinar e celebrar a diversidade nas escolas é falar das “raças” e fazê-las desfilar em fantasias jocosas de carnaval, como podemos não perguntar-nos como chegamos aqui?

Depois de nos perguntarmos mil vezes quem protege aquelexs para quem a cor da pele, o cabelo, os adereços, o vocabulário e o sotaque, a identidade, a ancestralidade e a origem não são adereços de uma fantasia, mas antes motivo, demasiado simultâneo, de orgulho e resistência e de risco e pretexto, risco e pretexto para tantas e recorrentes formas de violência estrutural e institucional (que vão desde a acusação de vitimismo à morte)… depois de nos colocarmos esta questão mil vezes e de a tornarmos um automatismo consequente, resta-nos ainda uma questão, pelo menos uma: quem é que nos protege, a nós brancxs, da ignorância? Quem nos protege de nos tornarmos alvo de arremesso de acusações de preconceito e de racismo e bodes expiatórios de uma culpa colonialista? A pergunta que há muito se impõe (gritante!) é quem nos protege de sermos herdeirxs da branquite, do manto de obscurantismo e dos viéses que destes decorrem e que nos impõem uma cegueira defensiva e uma ignorância social em relação aos temas da diversidade? Quem nos ensina e aos/às nossxs filhxs sobre o processo de racialização, sobre a “raça” enquanto construção e perpetuação de um sistema social desigual, que protege o que herdamos, por via de séculos de exploração e apropriação, e que tomamos e mantemos como privilégio endógeno?

Temos dúvidas de que é assim? Quando numa escola se ensina sobre as “raças”, como se tivessem validade científica, ignorando décadas de conhecimento científico e evidências que vão da genética e da biologia, à antropologia, sociologia e epidemiologia… quando assim se reduzem a diversidade cultural e todas as suas variações, países, continentes e culturas imensas, ancestrais e actuais, todxs xs que partilham uma origem, pertença ou identidade cultural, veiculando distorções e estereótipos patéticos e à revelia da ofensa e indignação… Chegando aqui, não seria altura de questionarmos porque toleramos fantasias e piadas racistas (se quiserem também machistas e homofóbicas) e insistimos em tê-las como inocentes e inconsequentes? Não terá chegado a altura de nos perguntarmos porque nos custa tanto que nos digam que tudo isto é ofensivo e que não podemos insistir em reclamar o privilégio de o negar? Se “todo o Carnaval tem seu fim”, não terá chegado a hora das fantasias, e do privilégio de as vestir e despir, terem também?

Alguns links para informações e reflexões adicionais:

Jornal Público “A minha etnia não é uma fantasia de Carnaval” de Cristiana Xia Wu

The New York Time “Why White People Need Blackface” by George Yancy


Plataforma estudantil EnsinaTE

O objetivo do EnsinaTE é ajudar jovens estudantes com o seu percurso escolar, e equipá-los para o mundo de trabalho. Fazemos isto através de varios textos com dicas!

Sendo o EnsinaTE uma plataforma que promove a educação não podíamos ficar indiferente ao que se têm passado em Portugal nos últimos dias. Foi então que resolvemos perguntar aos nossos seguidores jovens estudantes, sobre as experiências racistas que já passaram ou passam no seu dia a dia. 
Falamos tanto com, leitores negros e brancos e construímos o seguinte texto: Exclusão racial- Jovens estudantes pronunciam-se sobre o bairro Jamaica.
O racismo é algo que existe e deve ser discutido abertamente para que possamos eliminá-lo e nada melhor do que começar o discussão com os jovens.

AGRESSÕES NO BAIRRO DA JAMAICA NÃO PODEM FICAR IMPUNES


Circula nas redes sociais um vídeo que mostra violentas agressões perpetradas por agentes da PSP contra uma família no Bairro da Jamaica no concelho de Seixal. Independentemente do contexto e das circunstâncias em que ocorreram, num estado de direito, onde a integridade física e moral das pessoas é inviolável, estas agressões são absolutamente injustificáveis e inaceitáveis.

O SOS Racismo, tendo-se deslocado ao bairro e ouvido os testemunhos das próprias vítimas e dos cidadãos que presenciaram a intervenção da polícia, só pode condenar veementemente a atuação da PSP e exigir naturalmente o apuramento das responsabilidades.

Perante o sucedido, há que lembrar que esta forma de intervenção que assistimos hoje no Bairro da Jamaica por parte das forças policiais não é inédito nem é mais um caso isolado. Este comportamento dos agentes que agrediram aquela família revela um modus operandi enraizado nas intervenções das forças de segurança nos bairros habitados por Negros e Ciganos. O que não pode continuar. Reafirmamos que, independentemente das circunstâncias e dos contornos em que aconteceu o caso, não se poderão repetir os habituais procedimentos que consistem, de forma expedita, em procurar ilibar os agentes e incriminar as vítimas, com recurso à figura do julgamento sumário. É de elementar justiça e interesse público permitir que se esclareça tudo o que há por esclarecer neste caso e que se apurem responsabilidades, tomando as consequentes medidas punitivas que se impõem. 

Perante isto e para que se faça justiça, o SOS Racismo irá apresentar queixa ao Ministério Público. A sociedade e as instituições públicas, nomeadamente, os serviços de segurança e de justiçam devem assumir a responsabilidade de garantir que o racismo que alberga a violência policial não é aceitável e não pode continuar impune.

SOS Racismo
20 de janeiro de 2019

Mobilização Nacional de Luta contra o Racismo

15 de Setembro – 15h00
Braga, Lisboa e Porto


Os vários casos de racismo que têm sido discutidos na praça pública são só a ponta do icebergue daquilo que as nossas comunidades sofrem no seu dia-a-dia, sem que se faça justiça. Precisamos de sair à rua, juntos/as, para combater o racismo, manifestarmos o nosso repúdio e a nossa solidariedade para com as vítimas de discriminação racial. Por isso, chamamos todos/as à Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo, no dia 15 de Setembro, sábado, às 15 horas em Braga (Av. Central/Chafariz), Lisboa (Rossio) e Porto (Praça da República).
As agressões policiais a negros/as, ciganos/as e imigrantes acontecem nos bairros, nas ruas, nos transportes públicos e nas esquadras. Perante elas, o Estado português pouco ou nada faz. Moradores da Cova da Moura foram agredidos debaixo de insultos racistas pela PSP de Alfragide. A polícia encobriu os factos, acusando os moradores de tentativa de invasão de esquadra. No Porto, Nicol Quinayas foi agredida por um segurança da empresa 2045 enquanto era alvo de insultos racistas, quando tentava apanhar um autocarro da STCP. A PSP, chamada ao local, só agiu 3 dias depois perante a indignação pública. Em Beja, Igor, jovem cigano, foi baleado na face por um agente da PSP de Beja, quando se deslocou a uma quinta para pedir trabalho na apanha da azeitona. Todos sabem da infiltração da extrema-direita nas forças de segurança. Não nos esquecemos do Élson Sanches “Kuku”, do MC Snake, do Musso e de todos aqueles que morreram ou foram agredidos pelas autoridades policiais, sem que tenha sido feita justiça.
O racismo na política é gritante, seja pela ausência de representatividade política de negros/as, ciganos/as e imigrantes, seja por atos racistas de vários representantes políticos. São grandes as desigualdades no acesso à educação, saúde, habitação, justiça, cultura e ao emprego com direitos para negros/as, ciganos/as e imigrantes. Mas o silêncio dos sucessivos governos e das organizações políticas, na sua maioria, sobre o racismo e xenofobia é aterrador.
Apesar de tudo isto, ouvimos constantemente a frase “Portugal não é um país racista”. Sabemos bem que isto não é verdade, Portugal é um país racista, sim! E a violência é ainda maior quando ao racismo se adicionam outras discriminações como a de género, classe social, orientação sexual e identidade de género. Por tudo isso, juntem-se à Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo.
Só a nossa luta garante que se faça justiça!
Só a nossa luta garante o fim do racismo!

Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo
Dia 15 de Setembro, sábado, às 15h
Lisboa (Rossio) | Porto (Praça da República) | Braga (Av. Central/Chafariz)

 

Coletivos promotores:
Afrolis – Associação Cultural; GTO Lx – Grupo de Teatro do Oprimido; MUXIMA; FEMAFRO – Ass. de Mulheres Negras, Africanas e Afrodescendentes; DJASS – Ass. de Afrodescendentes; Observatório do Controlo e Repressão; Casa do Brasil; CAIPE – Coletivo de Ação Imigrante e Periférica; Consciência Negra; Socialismo Revolucionário; SOS Racismo; Plataforma Gueto; Nêga Filmes; Ass. Cultural Moinho da Juventude; Associação Muticultural do Carregado; Khapaz – Associação Cultural de Jovens Afodescententes; Solidariedade Imigrante – Associação para a defesa dos direitos dos imigrantes (SOLIM); Associação Passa Sabi; Associação dos Filhos e Amigos de Farim (AFAFC); APEB – Ass. de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros de Coimbra; Organização dos Estudantes da Guiné-Bissau de Coimbra; Letras Nómadas – Ass. de Investigação e Dinamização das Comunidades Ciganas; Em Luta; Teatro Griot; INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal; Associação Nasce e Renasce; Associação Krizo; A Gazua; Coletivo Chá das Pretas; Festival Feminista do Porto; A Coletiva; Núcleo Antifascista de Braga; UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta (Braga); STCC – Sindicato dos Trabalhadores de Call Center; AIM – Alternative Internacional Movement; Banda Exkurraçados; Hevgeniks; Kalina – Associação dos Imigrantes de Leste; Comunidade Bangladesh do Porto; União Romani Portuguesa; AMEC – Associação de Mediadores Ciganos; CIAP – Centro Incentivar a Partilha; Associação Mais Brasil; Coordenadora Antifascista Portugal; Associação Saber Compreender; GAP – Grupo Acção Palestina; GERA – Grupo Erva Rebelde Anarquista; Existimos e Resistimos; Rede Ex aequo; Porto Inclusive; Disgraça; Nu Sta Djunto; Outros Ângulos; Assembleia Feminista de Coimbra; UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta (Coimbra); Txiribit; Projeto Aparte; Instituto das Comunidades Educativas (ICE); Ass. Desenvolvimento do Minho Rural (ADMIR); Coletivo Tuía de Artifícios; Associação Cultural e Recreativa Estrela da Lusofonia; Sindicato dos Estudantes; Associação Actividade Motora Adaptada; ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo.