Pitch me! – a convocatória para argumentistas emergentes lançada pela Academia Portuguesa de Cinema com a Netflix

CANDIDATURAS ABERTAS DE 31 DE JULHO a 07 DE SETEMBRO DE 2023

A Academia Portuguesa de Cinema e a Netflix anunciam a abertura da convocatória PITCH ME!, destinada a descobrir o trabalho de argumentistas emergentes, através de um programa de desenvolvimento de escrita no formato de residências, e que visa oferecer aos autores dos projetos selecionados uma oportunidade de colaborar e desenvolver as suas ideias, orientados por uma equipa de profissionais – argumentistas, mentores, script doctors, etc.

Depois da sua primeira edição, em 2019, no âmbito do “A Quatro Mãos” a iniciativa “Pitch Me!” regressa, desta vez focada na diversidade e inclusão de autores e narrativas de segmentos da população em risco de exclusão social, sub-representados no cinema e no audiovisual, tais como: pessoas com diversidade étnica, cultural, sexual, de género, diversidade funcional ou deficiência, pessoas de contexto socioeconómico desfavorecido.

A iniciativa pretende selecionar autores emergentes que poderão desenvolver projetos através de um programa de duas residências, uma no início do programa e outra no final. Entre as duas residências, e ao longo de 4 meses, haverá um conjunto de sessões de mentoria com profissionais do setor (nomeadamente, argumentistas).

O programa culminará num evento presencial com um pitch dos projetos desenvolvidos perante um grupo de profissionais representativos da indústria cinematográfica e audiovisual portuguesa.

O júri responsável pela avaliação de projetos é composto pelo poeta e dramaturgo André Tecedeiro, o realizador Ary Zara, a atriz, produtora e argumentista Ciomara Morais, a argumentista e editora Marta Lança e a jornalista e escritora Paula Cardoso.

Saiba mais e consulte o regulamento em: www.academiadecinema.pt/pitch-me-2023/

SOS RACISMO Condena Atos de Violência e Abuso Policial em Incidente em Cedofeita

O Movimento SOS RACISMO expressa veemente indignação diante dos recentes incidentes ocorridos em Cedofeita, Porto, que resultaram em atos de violência e abuso policial.

No dia 15 de agosto, o SOS RACISMO tomou conhecimento de um incidente através de uma publicação nas redes sociais de Orquídea Oliveira, que descreve um episódio perturbador envolvendo um cidadão racializado e sem abrigo num supermercado local (parte da cadeia Pingo Doce). O incidente, que deveria ter sido resolvido de forma pacífica e digna, acabou em violência física, com segurança da loja e funcionários imobilizando o indivíduo em questão.

De acordo com relatos de testemunhas, após a intervenção dos funcionários da loja, um contingente da Polícia foi chamado ao local, culminando em mais violência, incluindo agressões físicas a pessoas envolvidas na tentativa de impedir ações excessivas por parte do segurança. Entre as testemunhas, destaca-se Inês Rodrigues que fora agredida após intervir em defesa da irmã (detida por se insurgir contra o modo como a situação estava a ser tratada) e da vítima inicial. Esta circunstância é um exemplo alarmante do abuso de poder e violência policial que ainda persistem em nossa sociedade.

Além disso, no dia 16 de agosto, Inês Rodrigues reportou ter apresentado uma queixa contra a agressão policial na esquadra, onde relata ter sido alvo de chacota por parte dos agentes presentes. A falta de respeito e sensibilidade demonstrada pelas autoridades apenas reforça a urgência de medidas de reforma e de formação no seio policial.

O SOS RACISMO condena categoricamente qualquer forma de violência, discriminação racial e abuso de poder, seja por parte de seguranças privados ou agentes policiais. É inadmissível que indivíduos sejam submetidos a tratamentos humilhantes e desumanos, simplesmente pela sua aparência ou origem étnica.

Reforçamos nossa solidariedade com as vítimas destes atos e expressamos nosso apoio incondicional àqueles que ousam lutar contra o racismo e a injustiça. Exigimos uma investigação transparente e imparcial deste incidente, bem como uma reavaliação profunda das práticas de segurança e das abordagens policiais para garantir que esses incidentes não se repetem.

O SOS RACISMO continuará a trabalhar incansavelmente para defender os Direitos Humanos, combater a discriminação racial e contribuir para uma sociedade mais justa e inclusiva e quer desta forma solidarizar-se com todos aqueles que deram a cara neste caso.

18 de agosto de 2023

O ensurdecedor silêncio sobre a violência policial

De acordo com a queixa que foi remetida ao SOS Racismo, Rubens Gabriel  Prates, cidadão brasileiro, negro, a viver em Portugal, foi barbaramente agredido por elementos da PSP no passado dia 17 de novembro de 2022, tendo-nos sido reportados os factos seguintes:

1 – No referido dia 17 de novembro de 2022, pelas 9h30 da manhã, Rubens Prates encontrava-se na rua do Poço de Borratem, em Lisboa, aguardando a realização de uma entrevista de emprego, quando foi abordado por cerca de 6 agentes da PSP.

2 – Sem aviso e sem qualquer justificação, os referidos agentes agrediram violentamente o jovem Rubens, com pontapés e murros, e levaram-no para a esquadra situada na Rua da Palma.

3 – Dentro da esquadra, as agressões multiplicaram-se, ao som de várias injúrias: 

– “Não olhes para mim, preto de merda”;

– “Estou aqui para acabar com a tua raça. Ouviste, preto de merda?”;

– “Eu queria ir para o Brasil para limpar a tua raça, limpar gajos como tu, pretos de merda como tu que existem lá”;

– Imagina se um preto de merda violasse agora a puta da tua mãe”;

4 – Durante todo este período, os agentes foram acusando Rubens de tráfico de droga – facto que não correspondia à verdade.

5 – Na esquadra, Ruben foi levado para a casa-de-banho, tendo-lhe sido ordenado que se despisse.

6 – Já com Rubens completamente nu, os agentes obrigaram-no a ler vários textos que lhe apresentaram num telemóvel, para o humilhar.

7 – As agressões continuaram, desta vez com recurso a cassetetes, tendo provocado lesões graves em Rubens.

8 – Rubens viveu cerca de 4h de terror na esquadra: humilhado, torturado, bárbara e covardemente agredido e alvo de insultos racistas.

9 – Depois deste período, os agentes decidiram efetuar uma visita a casa do Rubens. Já em casa deste, um dos agentes, encontrando umas luvas de boxe, vestiu-as e agrediu Rubens com vários socos.

10 – De regresso à esquadra, e perante as feridas evidenciadas por Ruben, um dos agentes afirmou o seguinte: “Sabe que essas marcas foram todas que caíste na rua, se disseres no Tribunal quem é que fez isso cuidado que eu sei onde a tua mãe trabalha, onde a tua mãe mora e onde a tua namorada estuda”.

11 – Nesse dia, Rubens seria transportado para o hospital, com graves lesões no corpo, tendo sido necessária a utilização de uma cadeira de rodas, pelo facto de não se conseguir levantar e andar.

12 – No dia 27 de novembro de 2022, entre as 20h e as 20h30 e quando Rubens regressava a sua casa, deparou-se com um dos agentes que o havia agredido, que ali se encontrava, sem farda.

13 – Ao ver Rubens, o agente telefonou para outros colegas, chamando-os ao local; minutos depois, chegaram mais dois agentes da PSP, um dos quais também tinha participado nas agressões do dia 19 de novembro.

14 – Rubens foi então revistado, forçado a despir-se na via pública e intimidado pelos agentes, que lhe fizeram várias perguntas sobre as queixas que o mesmo havia apresentado em Tribunal sobre as agressões a que fora sujeito.

15 – No dia 2 de dezembro de 2022, pelas 10h40, Rubens caminhava na Calçada do Combro, quando uma viatura da PSP parou à sua frente e um dos agentes o questionou: “Tu és o Ruben? Tu é que és o Ruben? Anda ali falar!”.

16 – Rubens foi então levado para um beco na Travessa da Condessa do Rio, e o referido agente, exibindo uma foto sua, perguntou se ele não era “o puto da foto”. Tendo confirmado que a foto era de Ruben, os agentes levaram-no de novo para a esquadra da PSP no Rato, sem qualquer justificação, onde permaneceu até às 12h.

17 – Agressões, tortura, abuso de autoridade, injúrias, discriminação racial, um rol extenso de violência perpetrada por agentes da PSP, inadmissível num Estado de Direito.

18 – Até à presente data, estes factos foram apenas relatados por um único órgão de comunicação social, o Setenta e Quatro (cfr. www. setentaequatro.pt/enfoque/ve-la-nao-mates-o-miudo-jovem-acusa-agentes-da-psp-de-o-terem-torturado-na-esquadra).

Há um silencio ensurdecedor quanto a este e muitos outros casos de violência policial sobre sujeitos racializados. Os factos são demasiados graves e deveriam motivar um interesse distinto por parte da comunicação social e de todos e cada um de nós.

Portugal tem já um histórico vergonhoso quanto a casos de violência policial, sendo já tempo de reverter esta página de violência e de horror.

O SOS Racismo condena veemente estes atos, exortando as entidades competentes – incluindo o Ministério da Administração Interna – a pronunciarem-se sobre esta situação e a instaurarem os processos de inquérito para apuramento da verdade e punição dos responsáveis.

O SOS Racismo está solidário com o Rubens e toda a sua família, estando disponível para tudo o que for necessário, para que se faça Justiça! 

Apelamos ainda a todas as vítimas de violência policial que apresentem queixas junto do Ministério Público e que divulguem todos os atos de violência a que foram sujeitas – não estão, nem vão ficar sozinhas! 

21 de junho de 2023

SOS Racismo

Migrar – um direito universal que tem de ser efectivamente garantido

Em que medida se cruzam os acontecimentos da suspeita de tráfico de pessoas, incluindo menores, associados à Bsports do naufrágio que dia 14 de junho ocorreu na costa grega? Em bem mais do que se poderia desejar.

As motivações daqueles que decidem migrar são diversas, muitas de causas de efectiva sobrevivência, de necessidade de segurança e quase sempre de anseio por uma vida melhor.  

A investigação em curso à academia de futebol Bsports, localizada em Riba D’Ave, Vila Nova de Famalicão, prolonga-se já desde 2020 sobre a suspeita de tráfico de menores. Estes, aliciados pelo sucesso no futebol pagam para vir para Portugal com a ambição de conseguir algum tipo de contrato num clube. Os que não são bem-sucedidos, terão ficado frequentemente abandonados, sem meios de subsistência, privados do seu passaporte e intimados a pagar a continuidade da sua estadia. Este processo parece estar de tal modo intrincado com o sistema do futebol profissional que o próprio presidente da Assembleia Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Mário Costa, é uma das figuras centrais do processo. É pois, preocupante a violação dos mais básicos direitos destes jovens migrantes, é também preocupante o carácter criminoso da rede, bem como, a dificuldade e a morosidade revelada pelas autoridades em investigar este processo, dar suporte às vítimas e condenar os responsáveis.

Em simultâneo, no Mediterrâneo, no passado dia 14 de junho, ocorreu mais um naufrágio. São já incontáveis os naufrágios ocorridos nestas circunstâncias. Mas não se pode deixar de contar o sucedido. Numa embarcação que se estima que transportasse mais de 750 pessoas, apenas 104 foram resgatadas, 78 foram retiradas do mar já sem vida, e centenas de pessoas permanecem desaparecidas. Sabe-se que muitas delas serão crianças. E sabe-se que o auxílio a estes migrantes que rumavam à Europa não existiu de facto. Nem as autoridades gregas, nem as autoridades italianas assumem o erro de não ter sido prestado o apoio devido à embarcação em tempo útil. Alega-se que os gregos terão sido os primeiros a oferecer ajuda ao início da tarde de terça feira, que terá sido recusada porque os responsáveis da embarcação queriam continuar a navegar até à costa italiana. Segundo a ativista Nawal Soufi, que manteve o contato com pessoas a bordo, depois da primeira aproximação das autoridades gregas, mais nenhum apoio foi oferecido ou prestado, quando o barco ficou à deriva durante horas. Um avião da Frontex terá sobrevoado a zona onde a embarcação se encontrava e nenhum apoio foi ativado. Mais grave ainda, suspeita-se que o reboque mal-executado do navio já em processo de naufrágio teria precipitado o afundamento e aumentado o número de vítimas.  As denúncias são feitas por várias organizações, entre as quais, “Alarm Phone” e “Médicos Sem Fronteiras”.

Só no primeiro trimestre de 2023 morreram cerca de 441 migrantes no Mediterrâneo, o maior número registado desde 2017 e o atraso no resgate foi responsável por cerca dum terço destas mortes. O empobrecimento sistémico dos povos do Sul, fruto do modelo económico predatório do sistema capitalista vigente que fomenta guerras e instabilidades várias para o controlo dos recursos naturais, acelerando alterações climáticas e a subsequente crise ambiental, é uma das principais causas do êxodo migratório nestas regiões. Às guerras larvares fomentadas pelo controle geopolítico do mundo e dos seus recursos, como acontece no Médio-oriente, com as guerras da Síria, do Afeganistão, do Iraque e do Iémen, no Mediterrâneo, com as guerras na Líbia bem como no continente africano, com os conflitos no Sahel, nas regiões dos Grandes Lagos, acrescem ainda a instauração de regimes opressivos, alimentados e financiados pelo capitalismo financeiro mundial. Nenhuma verdadeira alternativa é proporcionada. E convém lembrar que a rota migratória por terra de acesso à Europa, mais segura, foi há muito tempo tornada inviável pela União Europeia, com crescentes cercas nas suas fronteiras e sistemas de bloqueio de rotas mesmo além das suas fronteiras, em países como a Turquia e Líbia e não só. Essencialmente, a União Europeia comprometeu qualquer possibilidade de uma imigração segura para a Europa ao estabelecer uma política de mobilidade seletiva, através de um regime de vistos só acessível a alguns e, ao mesmo tempo, faz da vigilância e de repressão um modo de gestão dos fluxos migratórios.

O Movimento SOS Racismo, vem, mais uma vez, denunciar a hipocrisia das políticas de imigração e o desrespeito pelos mais elementares direitos humanos das populações migrantes. Em Portugal como na União Europeia, urge ter verdadeiras medidas de combate ao tráfico de pessoas que sancionem efetivamente os criminosos e protejam as vítimas, criando condições dignas e seguras para aqueles que queiram migrar.     

18 de junho de 2023

SOS Racismo

Nota de Pesar – Eduarda Dionísio

Foi com enorme sentimento de perda que recebemos a notícia da morte da Eduarda Dionísio, no passado dia 22 de Maio. Escritora, pedagoga, animadora cultural, dramaturga, ensaísta, jornalista, sindicalista, Eduarda Dionísio fez parte de uma geração de lutadoras comprometidas com as causas da Liberdade, antes e depois do 25 de Abril de 1974.

Em 1993, realizou um distinto estudo sobre a cultura em Portugal, com o título “Títulos, Ações, Obrigações”, centrada na compreensão da fragilidade humana e do olhar crítico perante a vida e o mundo. Ativista incansável, colaborou com O Bando e com o Teatro da Cornucópia, nomeadamente com uma importante colagem de textos de Raul Brandão, ‘Primavera Negra’.

Foi professora do ensino secundário e teve um intenso envolvimento na luta política e social, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980. Participou em exposições coletivas de artes plásticas, escreveu diversas antologias de textos literários portugueses e participou ativamente na dinamização teatral. Assinou com Antonino Solmer, a peça “Dou-Che-Lo Vivo, Dou-Che-Lo Morto”. Traduziu Shakespeare, Schnitzler, Brecht, Müller e Fosse.

Desde da fundação do SOS Racismo que colaborou com a nossa associação e o ponto alto foi a denúncia sobre o significado da Expo 98, com a organização conjunta de um seminário InternacionaL “Em tempo de Expo, há outras histórias para contar” e com a edição em livro das atas desse seminário,

Eduarda Dionísio dirigia a Casa da Achada, em Lisboa (que recentemente recebeu o debate sobre o 21 de Março em que esteve presente) onde se encontra o espólio de

seu pai.

O SOS Racismo envia aos familiares e amigos um forte e fraterno abraço e à Casa da Achada, um sentido abraço amigo.

Adiamento

Todas as audiências e julgamentos agendados para dia 26/04/2023 foram adiados devido à paralisação convocada pelo Sindicato dos Funcionários Judiciais, que se iniciou neste dia e se prolonga até 05 de maio.