Acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de Lisboa, na sequência do recurso apresentado por Mamadou Ba, da decisão judicial que o havia condenado pelo crime de difamação

Comunicado de Imprensa

  1. O Tribunal da Relação de Lisboa considerou parcialmente procedente o recurso interposto pelo ativista Mamadou Ba da sentença judicial proferida pelo Juízo Local Criminal de Lisboa, que o havia condenado pela prática do crime de difamação do neo-nazi Mário Machado
  2. De acordo com o referido Acórdão, o Tribunal de 1a instância não efetuou uma apreciação explicita dos argumentos expostos pela defesa, nem enquadrou ou contextualizou sequer as afirmações de Mamadou Ba, nomeadamente em função dos trágicos acontecimentos ocorridos no dia da morte de Alcindo Monteiro, da participação de Mário Machado e do seu passado violento, ou da intervenção cívica do próprio Mamadou Ba, enquanto ativista anti-racista e defensor dos direitos humanos.
  3. Por esses motivos, a sentença recorrida foi anulada, por falta de fundamentação, tendo sido determinada a realização de novo julgamento, cingido à ponderação dos factos à luz da documentação e prova produzida nos autos, que permitam a devida contextualização da publicação de Mamadou Ba.
  4. O processo judicial não termina aqui, mas o SOS Racismo congratula-se com esta decisão do Tribunal da Relação de Lisboa e com a possibilidade que é agora dada a Mamadou Ba de se poder defender na íntegra, de ver os seus motivos devidamente analisados e ponderados em Tribunal e, no final, de poder vir a ser absolvido da acusação infame que lhe foi dirigida.
  5. O SOS Racismo está solidário com Mamadou Ba e com todas as pessoas que lutam pela democracia, contra o racismo e contra a xenofobia.

12 de abril de 2024

A Violência Policial é inaceitável!

Na madrugada da passada terça-feira dia 02 de Abril, em Setúbal, quatro jovens, incluindo
menores de idade, foram violentamente agredidos em plena via pública por agentes da PSP.
Este ato terá ocorrido na sequência de uma suspeita de furto de uma viatura. As imagens
difundidas nas redes sociais mostram os jovens a serem agredidos enquanto eram
imobilizados no chão.
Foi dado conhecimento oficial de que foi iniciado um processo interno de averiguação na
PSP e um inquérito na Inspeção Geral da Administração Interna para esclarecer a
ocorrência de violência policial.
As imagens são de violência. As imagens são de agentes da PSP a agredir os jovens.
Nunca é de mais relembrar que as forças policiais deveriam ser garantes do Estado e da
Constituição da República Portuguesa, com dever de proteção para com todas as pessoas.
Não é aceitável que uma força que deve ser protetora seja antes uma agressora quando
perante pessoas racializadas.
É essencial investigar com rigor e isenção as agressões perpetradas, identificar os seus
responsáveis e condenar os mesmos. E é fundamental prevenir outros episódios de
violência. O recrutamento e formação dos profissionais das forças de segurança tem de
incluir critérios e medidas explicitamente focadas na prevenção de ódio racial e xenófobo.
Mais ainda, as atuais metodologias de abordagem a pessoas racializadas têm de ser revistas
e excluir todas formas de agressão. Os mecanismos de acompanhamento, vigilância e
condenação da violência policial têm de funcionar sem entraves e com o devido escrutínio
e as vítimas têm de ter justiça e de ver reparados os seus danos.
O ambiente político que se vive hoje, ano em que se comemora os 50 anos do 25 de abril,
confronta tragicamente as suas conquistas. Duas décadas depois do fim do regime de
conscrição no país, vemos retomar na sociedade o debate sobre a militarização e
reintrodução do serviço militar obrigatório. Vemos 50 deputados de extrema-direita no
parlamento e um agravamento do clima de vulnerabilidade para as comunidades
racializadas e migrantes. Por estes motivos, num nunca é demais reafirmar que é
fundamental condenar a violência policial.
Não faz ainda um mês que a Polícia de Segurança Pública (PSP) apagou uma
publicação nas redes sociais em que na legenda se lia “A nossa missão é garantir a sua
segurança” e numa imagem em que elementos da PSP estão junto à manifestação do
passado dia 3 de Fevereiro, organizada pelo grupo neofascista 1143, da qual Mário
Machado diz numa publicação na rede social ter “orgulho” em ser membro.
O SOS Racismo solidariza-se com todas as vítimas de violência policial e estará ao lado
de todo/as o/as cidadão/ãs agredido/as que divulguem os atos de violência a que foram
submetidos e apresentem queixa no Ministério Público – para que não sejam silenciado/as
e para que não fiquem sozinho/as.
A violência policial é inaceitável e o seu fim não pode ser adiado!

Carta aberta – Contra o racismo e a xenofobia, não desmobilizamos!

  • Exmo. Sr. Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa,
  • Exmo. Sr. Presidente do Tribunal Constitucional, José João Abrantes,
  • Exma. Sra. Procuradora-Geral da República, Lucília Gago
  • Exmo. Sr. Presidente da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, José Reis,
  • Exma. Sra. Presidente do Observatório do Racismo e Xenofobia, Teresa Pizarro Beleza
  • Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira,
  • Exmo. Sr. Comandante da Polícia de Segurança Pública do Porto, Pedro Neto Gouveia

Na madrugada de 17 de março de 2024, foi agredido Ademir Araújo Moreno, homem cabo- verdiano de 49 anos, que morreu na sequência de um ataque racista e xenófobo, na ilha do Faial, tendo sido encontrado inconsciente no chão. Em 2023, os crimes de ódio subiram 38% em Portugal, a história de Ademir é a mais recente de que tivemos conhecimento através da comunicação social, mas não é a única e não será, infelizmente, a última.

À semelhança da Carta Aberta divulgada em Janeiro deste ano, assinada por milhares de organizações e pessoas individuais, que pedia a proibição da manifestação “contra a islamização da europa”, marcada para dia 3 de fevereiro, no Martim Moniz, dirigimo-nos a vossas excelências nesta nova Carta, com as mesmas motivações. No contexto de marcação de uma manifestação com motivações racistas e xenófobas, para o dia 6 de abril de 2024, na cidade do Porto, exigimos que todos os responsáveis políticos e institucionais façam cumprir o artigo 13º da Constituição, o princípio da igualdade, e acionem os mecanismos processuais para que se aplique o artigo 240º do Código Penal, relativo à discriminação e incitamento ao ódio e à violência. O objetivo é travar a saída desta manifestação que, por se poder qualificar entre “atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião” se constitui como incitamento ao ódio e à violência e não mero exercício da liberdade de expressão. A moldura penal para este crime é de pena de prisão de um a oito anos. Com esta Carta, pretendemos defender a segurança de todas as pessoas imigrantes em Portugal, combater o racismo, a xenofobia, a hostilidade religiosa e o crescimento do discurso de ódio a que temos vindo a assistir. Queremos dar um sinal inequívoco e público de que atos e organizações sociais, políticas e partidárias racistas e xenófobas são inaceitáveis e queremos demonstrar a nossa solidariedade para com as vítimas de todos os ataques de ódio em Portugal.

Esta manifestação foi convocada pelo grupo 1143, conhecido pela sua ideologia ultranacionalista e neonazi, tendo entre as suas fileiras vários elementos com processos pendentes e referenciados pela polícia. Na convocatória para a manifestação no Porto “menos imigração, mais habitação”, apontam como inimigas as pessoas que já são as mais discriminadas, estrutural e historicamente, na nossa sociedade, cavalgando o ódio e desviando as atenções das verdadeiras razões estruturais para o problema de habitação que todos sentimos hoje em dia, culpando quem se encontra mais fragilizado.

Sabemos que os relatos que chegam são muitas vezes os de casos que foram longe demais e resultaram em mortes, e representam apenas uma parte da realidade dos crimes de ódio contra as comunidades imigrantes, que têm vindo a crescer em Portugal. No ano de 2023, foram várias as reportagens que deram conta de uma realidade invisível. Os ataques aos imigrantes de Olhão – 15 agredidos; o incêndio de um prédio na Mouraria – 2 mortos e 14 feridos; ou os 33 crimes relacionados com maus-tratos a imigrantes em Odemira. Segundo o Ministério Público, um “ódio claramente dirigido às nacionalidades das vítimas e apenas por tal facto e por saberem que, por tal circunstância, eram alvos fáceis”. No dia 5 de novembro de 2023, Gurpreet Singh, de nacionalidade indiana, foi o alvo fácil, vítima de um ato de violência extrema em Setúbal, morto com um tiro de caçadeira no peito, que foi disparado através de uma janela, no rés do chão e virada para a rua. Somam-se as reportagens sobre as redes criminosas que têm vindo a ser desmanteladas, sobre o tráfico de pessoas, auxilio à imigração ilegal, angariação de mão de obra ilegal, extorsão, branqueamento de capitais, fraude fiscal, ofensas à integridade física, posse de arma de fogo e falsificação de documentos, ligadas ao aliciamento de imigrantes para trabalhar em explorações agrícolas, nomeadamente da zona do Alentejo.

Esta realidade não passou ao lado do Governo em funções, na pessoa do Ministro da Administração Interna que descreveu os actos de Olhão como uma “agressão bárbara”, um “comportamento inadmissível e inaceitável” que deve ser “exemplarmente punido”; nem do Presidente da República que em Janeiro de 2024 se mostrou vocal e apelou: “não desmobilizemos do combate a todas as formas de racismo, anti-semitismo, discriminação, xenofobia e homofobia, e de lutarmos pela solidariedade e fraternidade humanas, ontem como hoje.” As ruas de Portugal são cada vez menos seguras para as pessoas imigrantes. Fala-se de invasão, insegurança, ódio religioso e da necessidade de mostrar que estão a mais e não são bem-vindos, ou até mesmo que são a causa do problema da habitação. Além de profundamente racista e xenófoba, esta ação põe em causa a segurança das pessoas imigrantes que vivem e trabalham no Porto.

No ano em que o 25 de Abril comemora 50 anos, é preocupante o crescimento de grupos racistas e xenófobos, num país que sempre teve filhos e netos emigrantes, que estigmatizam quem procura melhores condições de vida através do trabalho. A liberdade de expressão não pode ser capturada pelo ódio, pela mentira e pelo afastamento do outro, mas deve ser utilizada para fortalecer todos os pilares de uma democracia plural. Em fevereiro, a PSP emitiu um parecer negativo à realização de uma manifestação do grupo 1143 marcada para o Martim Moniz, em Lisboa, por considerar que existia “um elevado risco de perturbação grave e efetiva da ordem e da tranquilidade pública”. Pensamos que a cidade do Porto corre o mesmo risco no dia 6 de Abril, estando prevista a deslocação de manifestantes do Grupo vindos de todo o país, com tochas e foguetes. O direito à manifestação não é absoluto nem pode ir contra pilares base da nossa Constituição, pondo em causa os direitos de pessoas singulares e coletivas, pondo em causa a segurança pública, pelo que apelamos à vossa mais célere e ponderada actuação, protegendo assim os habitantes da cidade do Porto, defendendo a liberdade e a democracia.

2 de Abril de 2024

Nesta carta constam as assinaturas recolhidas até às 10h30 do dia 2 de Abril de 2024. O formulário pode ser consultado aqui.

Assinantes:

  1. 8M Guimarães
  2. Afropsis
  3. Aliança Social Democrata
  4. Amadora antifa
  5. ARBC-MARVILA
  6. Art Beat Coollective
  7. Associação Cultural Batucada Radical
  8. Associação Cultural Fazendo
  9. Associação Iniciativa Jovem
  10. Associação Kosmicare
  11. Associação monte da amOrada
  12. Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória(NAM)
  13. Associação Saúde das Mães Negras e Racializadas em Portugal – SaMaNe
  14. ATMU
  15. Brigada Fernanda Mateus
  16. C.e.m-centro em movimento
  17. Casa da Horta, associação cultural
  18. CHEDV
  19. Cicloficina do Porto
  20. CIVITAS Braga
  21. CLAP-COMUNIDADE, LABORATÓRIO ACÇÃO E PROJETOS RTOS
  22. Climáximo
  23. Clube Recreativo do Feijó
  24. Coimbra Pela Palestina
  25. Coletivo ATRAÇA
  26. Coletivo Feminista Bejense”AsInsuspeitas”
  27. Coletivo Feminista de Letras
  28. Coletivo pela Libertação da Palestina
  29. Coletivo Sabotagem
  30. Comitéde Solidariedade com aPalestina
  31. Coop99 – Cooperativa integral do Porto CRL
  32. Cor(p)odeIntervenção(CoroIntergeracionaleMultticultutaldapalavradita)
  33. EBANO collective
  34. Escola de Macieira Associação Cultural
  35. Espaço Escuta Activa-saúde mental anti-autoritária
  36. Espectro
  37. Feminismos Sobre Rodas
  38. Frame Colectivo
  39. Grémio Cezimbrense
  40. Guimarães LGBTQIA+
  41. Guimarães pela Palestina
  42. Habitação Hoje
  43. Headbangers Antifascistas
  44. He For She Coimbra
  45. He For She FLUP
  46. HeForSheUniversidadedoMinho
  47. Humanamente-Movimento Pela Defesa dos Direitos Humanos
  48. HumansBeforeBorders
  49. LutaFinal-AssociaçãoPolítica
  50. MovimentoReferendopelaHabitação
  51. Movimento SOS Racismo
  52. MovimentoVirgíniaMoura
  53. NEANTRO (Núcleo de Estudantes de Antropologia da UNL-FCSH)
  54. Núcleo Antifascista de Bragança
  55. Núcleo Antifascista de Guimarães
  56. Núcleo Antifascista do Porto
  57. Núcleo de Alunos de Sociologia do Porto -NASP
  58. Núcleo de Imigrantes das Belas Artes(NIBA)
  59. Opus Diversidades
  60. Paços da República dos Inkas
  61. Plataforma Artigo65.o
  62. Plataforma 285
  63. Portuando
  64. Projecto Ruínas Associação
  65. Queer Lisbon Tour
  66. Rede 8M Coimbra
  67. República Solar des Kapangas
  68. Restaurante TiaTia
  69. Saber Compreender
  70. SaMaNe Associação Saúde das Mães Negras e Racializadas em Portugal
  71. Sindicato dos Trabalhadores de Call Center
  72. SlowMotionTours
  73. SOS RACISMO
  74. StopDespejos
  75. The Revolution Will not Happen in your Screen
  76. Tropicaustica
  77. Túnel
  78. UMAR-UniãodeMulheresAlternativaeResposta
  79. UniãodaJuventudeComunista-UJC
  80. UniãoMarxista-LeninistaPortuguesa

Violência contra anti-fascistas: CML e PSP cedem à extrema-direita

Anunciada para dia 3 de Fevereiro, a manifestação racista, islamofóbica e fascista que pretendia, sob o mote “Contra a islamização da Europa” marchar pela rua do Benformoso, Martim Moniz e rua da Palma, foi proibida pelo tribunal administrativo do círculo de Lisboa de o fazer, confirmando a decisão inicial da CML da não realização dessa acção, depois da apresentação de uma queixa-crime entregue pelo SOS Racismo no DCIAP de Lisboa (Ministério Público) e, sobretudo, pela pressão da denúncia da carta aberta “Contra o Racismo e a Xenofobia, recusamos o silêncio”, que teve 8,264 assinaturas individuais e 210 associações e vários coletivos. Quase10,000 vozes exigindo actuação ao abrigo da Constituição da Republica Portuguesa, denunciando a prática do crime de discurso de ódio.

No dia 3 de Fevereiro o grupo 1143 de extrema-direita realizou, num local diferente ao inicialmente definido, ao abrigo de permissão camarária e da PSP, o seu desfile de ódio. Permitiu o CML que neonazis e neofascistas descessem do Largo Camões até à Praça do Município empunhando tochas, bandeiras, entoando o hino nacional acompanhado da saudação nazi e louvores salazaristas. A CML permitiu assim, 29 anos depois do brutal assassinato de Alcindo Monteiro na Rua Garrett por um grupo de neonazis e neofascistas do qual Mário Machado fazia parte, que o mesmo com o seu grupo voltasse a marchar pela mesma rua, entoando cânticos de ódio, marchando sob proteção policial. Para a CML, a ilegalidade depende das coordenadas apresentadas pelos responsáveis da convocatória, e não pelo teor da manifestação, onde o crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, previsto no artigo 240o do Código Penal, seriam, e foram, cometidos.

Até à data, nenhuma entidade a quem foi dirigida a carta aberta “Contra o Racismo e a Xenofobia, recusamos o silêncio” se pronunciou, e o seu silêncio torna-se cúmplice de um crime cometido com o aval da CML.
Dia 3, contrariando a intenção fascista e racista anunciada, milhares de pessoas concentraram-se no Intendente, celebrando a interculturalidade e a diversidade, contra o racismo e a xenofobia. Diversos colectivos e organizações da sociedade civil ocuparam o espaço devolvendo as ruas à liberdade, sob o lema “Não passarão!”.

Um grupo de activistas antifascistas e antiracistas deslocou-se até à Praça do Município contestando a manifestação fascista e racista (que a ONG GPAHE já concluiu ter no seu meio apoiantes do Chega), ocupando o espaço destinado ao final da marcha nazi, com o mote “As únicas pessoas que não são bem-vindas aqui, são os fascistas”. Segundo jornalistas que estavam no local, sem qualquer aviso prévio para dispersar, a polícia de intervenção rápida recorreu à força e a gás pimenta sob as e os manifestantes que, pacificamente, protestavam e contestavam o espaço público. Além dos activistas, dois jornalistas em exercício de funções foram espancados, empurrados e pontapeados, bem como turistas e outros transeuntes que assistiam ou passavam na Rua do Arsenal, resultando em 4 feridos com gravidade e dois detidos. Um dos detidos, já imobilizado no chão, foi agredido com duas cacetadas nas costas. Os elementos da polícia de intervenção rápida, contrariamente à obrigatoriedade legal e recomendação da Inspeção-Geral da Administração Interna, não exibiam nenhum elemento de identificação visível e frontal, com o nome ou número.

O SOS Racismo repudia a atuação da CML, por profundo incumprimento do Código Penal e da Constituição da República Portuguesa, no ano em que se comemora 50 anos de Abril. 50 anos depois, as ruas, a Liberdade, volta a estar comprometida, com o silêncio de todas as autoridade e de todo o sistema estatal.

Num gesto que evocou as sombrias procissões do Ku Klux Klan, o grupo de extrema- direita 1143 desfilou pelas ruas de Lisboa, numa marcha que relembrou tragicamente os linchamentos até à morte ocorridos no passado, celebrando de forma macabra a tragédia de 1995. Esta ação não só desrespeita a memória das vítimas como ignora os princípios de humanidade e justiça. Condenamos veementemente a violência perpetrada e repudiamos a atuação da Polícia de Segurança Pública (PSP), que, ao invés de proteger, agiu com desmedida brutalidade contra manifestantes pacíficos. Exigimos que a tutela e a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) realizem um rigoroso apuramento das responsabilidades criminais dos agentes que atuaram de forma ilegal, assegurando que a justiça prevaleça e que tais atos não se repitam, em respeito à lei e aos direitos fundamentais.

NOTA – emitimos o presente comunicado no mesmo dia em que Mário Machado é presente em tribunal, acusado de discriminação e incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda.

NÃO PASSARÃO!

Comunicado SOS Racismo – Queixa Crime

O SOS Racismo apresentou ontem, no Ministério Público, uma queixa crime contra as pessoas responsáveis pela convocatória de uma manifestação/marcha em Lisboa, denominada “Manifestação Contra a Islamização da Europa”, marcada para o dia 3 de fevereiro de 2024, em Lisboa.

A referida convocatória e manifestação servem unicamente para expressar discursos de ódio, generalizações, preconceitos e afirmações ostensivamente falsas, injuriosas e difamatórias sobre um conjunto de pessoas, em função apenas da sua nacionalidade, origem, religião e cultura, e apelam, diretamente, à violência dirigida às comunidades imigrantes que residem ou trabalham em Portugal.

O SOS Racismo entende que os responsáveis por esta convocatória cometeram os crimes de discriminação e incitamento o ódio e à violência, previstos no artigo 240º do Código Penal, e apela ao Ministério Público que proceda às diligências necessárias para que o mesmos sejam levados a julgamento.

O SOS Racismo apela ainda às autoridades competentes que não permitam que tal marcha venha a ocorrer – desde o Ministério da Administração Interna, ao Ministério Público e à Câmara Municipal de Lisboa, todas estas entidades têm atribuições e competências específicas nestas matérias, cabendo-lhes defender os direitos fundamentais das pessoas visadas nestes atos de violência.

Por fim, convidamos todos e todas que não aceitam viver numa sociedade racista e xenófoba a comparecer no Intendente, em Lisboa, no próximo dia 3 de fevereiro, a partir das 16h, para afirmar a nossa solidariedade com as comunidades imigrantes que ali residem e trabalham.

Não passarão!

Lisboa, 26 de janeiro de 2024 

Execução racista em Setúbal: SOS Racismo Exige Ação Imediata Contra o Ódio

Segundo informação expressa nos meios de comunicação, um imigrante indiano foi vítima de um ato de violência extrema em Setúbal, na Rua Engenheiro Ribeiro da Silva, nas Praias do Sado, que culminou na sua execução. A Polícia Judiciária de Setúbal, segundo as mesmas fontes, deteve dois irmãos, de 22 e 29 anos, pelo homicídio de Shahil Gurpreet Singh, jovem de 25 anos, no dia 5 de Novembro. Os dois suspeitos de nacionalidade portuguesa tentaram matar todos os seis ocupantes da casa por motivação racista. Nesse domingo, Gurpreet Singh, estava no seu quarto quando foi assassinado com um tiro de caçadeira no peito disparado através de uma janela. Outra pessoa, de 33 anos, foi atingida num ombro – a Polícia Judiciária acredita que o objetivo dos criminosos era atingir todos os moradores.

Expressamos a nossa mais veemente condenação a este ato hediondo. O SOS Racismo repudia qualquer forma de discriminação e apela à sociedade para que se una na condenação deste crime de ódio. A perda de uma vida humana em circunstâncias tão cruéis é inaceitável e representa um ataque não apenas à vítima e à sua família, mas também a todos os pilares por que se deve pautar a nossa sociedade.

Instamos as autoridades competentes a conduzirem uma investigação rigorosa e célere para identificar e responsabilizar os autores deste ato criminoso. Oferecemos o nosso apoio e solidariedade à comunidade indiana, e apelamos a um reforço das medidas de combate ao racismo, promovendo a educação e sensibilização para a diversidade cultural.

Este crime é um aviso sombrio de que a luta contra o racismo é urgente e não pode parar. O SOS Racismo permanece comprometido em promover uma sociedade justa e inclusiva, onde todos os indivíduos possam viver livres de discriminação e violência.

SOS RACISMO
18 Dezembro 2023

Declarações discriminatórias por autarca de Elvas dão “razão” a estudo que comprova o impacto do discurso político na exclusão da Comunidade Cigana em Portugal.

O Movimento SOS RACISMO manifesta o seu profundo desagrado perante as declarações proferidas dia 6 de Outubro, durante a apresentação do ponto de situação da Estratégia Local de Habitação de Elvas, pelo autarca da cidade, Rondão de Almeida, na presença da Sra. Ministra da Habitação, Marina Gonçalves. 

Na sua alocução (que pode ser vista aqui: https://fb.watch/nJmFb6lM1y/), supõe que será criticado pela oposição sobre a inclusão da comunidade cigana nos novos fogos a serem construídos para rendas acessíveis. A esta “acusação”, o Sr. Rondão de Almeida responde de forma preconceituosa, afirmando peremptoriamente que nenhum membro da comunidade cigana em Elvas possui contrato de trabalho, reforçando assim estereótipos prejudiciais e falsos.

É notável que, mesmo antes da construção dos referidos fogos, aproximadamente mil elvenses de etnia cigana já se encontram excluídos. O Sr. Presidente da Câmara Municipal presume, erroneamente, que nenhum membro da comunidade cigana em Elvas possui os requisitos necessários para se candidatar, uma afirmação que é refutada pela Associação Cigana local, Sílaba Dinâmica. Esta organização afirma que há diversos elvenses ciganos com contrato de trabalho, preenchendo todos os requisitos para a candidatura aos referidos fogos.

O Sr. Rondão de Almeida demonstrou hoje, sem margem para dúvidas, a sua convicção de que não há nenhum membro da comunidade cigana com contrato de trabalho em Elvas. No entanto, é de notar que nas eleições locais, foram, sem dúvida, os votos dos elvenses ciganos que contribuíram para a sua eleição, por uma margem mínima.

Curioso que este discurso proferido hoje coincida também com a notícia (https://expresso.pt/sociedade/igualdade/2023-10-16-Eles-nao-trabalham-e-vivem-de-subsidios-e-o-tipo-de-frase-que-aumenta-as-atitudes-discriminatorias-em-12-25a136b9?utm_campaign=later-linkinbio-jornalexpresso&utm_content=later-38549017&utm_medium=social&utm_source=linkin.bio) da publicação de um estudo, realizado por Pedro Magalhães e pelo psicólogo social Rui Costa Lopes, no European Journal of Political Research que demonstra como o discurso político tem impacto na discriminação sofrida pela comunidade cigana.

Lamentamos igualmente que a Sra. Ministra da Habitação tenha permitido tais declarações, que envergonham a Constituição da República. Estas declarações apenas legitimam a ciganofobia neste país.

O Movimento SOS RACISMO vem exortar as autoridades locais e nacionais a tomarem medidas concretas para garantir a inclusão e dignidade de todas as comunidades, nomeadamente no acesso ao direito fundamental à Habitação.

16 de Outubro de 2023