EUROPEUS COM POUCO CÉREBRO?

“Público” (14/9/2007) – Franco Frattini diz que atrair cérebros é uma prioridade da União Europeia

A acreditar no que disse o vice-presidente da Comissão Europeia, os europeus andam com falta de inteligência, falta de “cérebros”, e daí precisarem de ir à pesca de imigrantes (mão-de-obra) qualificad@s. E não se pense que é uma qualquer pescaria de somenos importância.
Não! Segundo o mesmo personagem “trata-se de uma verdadeira competição internacional” para a qual ficaram apurados, além da União Europeia, os EUA, o Canadá e a Austrália.
Que @s american@s não andavam a bater bem da bola, já muitos de nós nos tínhamos apercebido, tendo em conta o que se tem passado no Iraque, no Afeganistão, nos próprios EUA. Mas sabe sempre bem que venha alguém tão conceituado explicar-nos as coisas.
Mas agora também ficámos a perceber que houve falta de perspectiva quando também o Canadá e a Austrália andaram a dar cabo da massa cinzenta que tinham entre portas (os índios e os aborígenes) e agora são obrigados a ir pescar para outras zonas.
E onde é que se vai pescar?
Explica ainda o responsável pela Justiça e Assuntos Internos da EU que começaram por acordos com o Mali, seguindo-se o Senegal e a Mauritânia. Também Cabo Verde já está na calha. Claro que qualquer “engenheiro indiano”, médico cubano ou informático asiático que caia nas redes, não será desperdiçado.

Contradições

Mas, mesmo o sr. Frattini nesta entrevista, mostra-se muito baralhado, contradizendo-se a todo o momento (também ele parece que já foi afectado pela doença cerebral de que acusa os europeus). Passemos a citá-lo:
“Atribuo particular importância aos trabalhadores altamente qualificados…”, “A ideia é favorecer a entrada dos que têm profissões que são necessárias à Europa…”, “…não devemos encorajar a fuga dos cérebros dos países mais pobres.” “…melhorar as condições e a burocracia para os que querem vir.” “…repatriar os que estão ilegais…”, “ajudar a promover o regresso ao país de origem.”.

Mas a confusão entre os ministros e secretários dos outros países também foi evidente.
Unanimidade absoluta sobre a necessidade de (milhões) imigrantes para suprir a falta de mão-de-obra e os lucros que essa mão-de-obra tem oferecido aos estados. Mas, mais importante ainda, essa necessidade é fundamental para compensar a crise demográfica, e por tabela, a sustentabilidade da segurança social. Além disso agora perceberam os governantes da EU que também necessitam urgentemente dos tais cérebros, dos tais trabalhadores altamente qualificados!

Hipocrisia

Mas todas estas constatações não impedem o sr. António Vitorino de afirmar peremptoriamente que a “imigração não é um direito, é uma oportunidade” que os imigrantes podem agarrar… e depois ouvir o desmentido, logo a seguir do ministro da Eslovénia (e de todos os outros que foram falando antes e depois de António Vitorino…será que a tal doença diagnosticada por Frattini já afectou o nosso ex-comissário?) dizendo que “a imigração é uma necessidade” para os estados!
Talvez aqui haja também um problema de cegueira: não ver o que está mesmo à frente dos olhos. Ou não querer ver?
Os estados atravessam uma crise demográfica enorme, com implicações no envelhecimento das populações (os trabalhadores teimam em morrer cada vez mais tarde, para o que lhes havia de dar) e ainda mais na Segurança Social. Uma necessidade cada vez mais aguda de mão-de-obra e não só qualificada, pois os sectores mais necessitados continuam a ser a Construção Civil, a Restauração, a Agricultura.
No entanto, o que foi dito por quase todos os responsáveis ministeriais da EU de uma forma clara, fria e cruel foi:
1 – Temos que fabricar imigrantes: a estes “inqualificados”, se formos obrigados a isso, pagamos-lhes mal e vamos-lhes dificultando a integração, fazê-mo-los perder horas e dias a fio nas filas dos serviços de fronteiras e, se mesmo assim se recusarem a perceber qual é o lugar que lhes está destinado, enviamos os skins para ver se aprendem;
2 – Precisamos também dos trabalhadores altamente qualificados (se for mesmo necessário, até lhes pagamos bem e os ajudamos a legalizar – isso já se passa com as cobaias deste sistema: os atletas de alta competição);
No dia a seguir Bob Geldof chamaria a esta política”uma forma compassiva de racismo”, “um campo minado, moralmente repulssivo” (Sofia Branco in “Público”, 15/9);
3 – Gostaríamos muito de ajudar ao desenvolvimento dos países terceiros…mas depois era uma chatice, pois os “cérebros” não teriam vontade de sair, de imigrar. De maneira que vamos manter a exploração desenfreada das matérias-primas, continuaremos a apoiar os ditadores, embora gritemos contra eles e pugnemos por regimes democráticos que continuem a deixar-nos lá ir buscar o ouro, o petróleo, o crómio, os diamantes, o gás natural, a madeira, o níquel, a bauxite, o ferro, o estanho, o titânio, fosfatos, peixe, o carvão, o urânio …a mão-de-obra barata e os cérebros menos baratos. Vamos continuar a fechar os olhos a este ou aquele deslize sobre os direitos humanos. Vamos continuar a fingir que lutamos contra o tráfico de crianças, de armas e que combatemos a prostituição. Vamos continuar a fechar os olhos às experiências assassinas da indústria farmacêutica, ao mesmo tempo que ameaçamos os países que procuram desenvolver medicinas mais baratas e que poderiam salvar centenas de milhares de vidas. E, claro, enviar de vez enquanto, medicamentos talvez ainda dentro do prazo de validade.
4 – Os crimes ecológicos que continuamos a praticar e a desenvolver, provocam a fome e tragédias “naturais” cada vez maiores e com consequências mais graves? Assim podemos desenvolver campanhas humanitárias que nos vão limpando as nossas consciências e, ao mesmo tempo, ajudando a convencer as pessoas desses países que não têm mais remédio que tentar ir para o suposto paraíso.
5 – Voltando a Frattini, prometeu agora 23 mil milhões de euros para ajuda aos países não desenvolvidos e mais 8 milhões para a estabilização das instituições!
Como é que ousamos criticar tão beneméritas ofertas?
Todas e todos sabem (e o Sr. Frattini também, por muito confuso que aparente andar) para onde tem ido o dinheiro supostamente enviado para os países pobres. Nas empresas bancárias, nos paraísos fiscais dos países que os enviaram, depositados em contas de ditadores e governantes corruptos desses países.
Citando ainda Sofia Branco, Hein De Haas (Universidade de Oxford) dizia que “a procura de mão-de-obra barata e ilegal continuará”, pois “não há vontade política para a combater”. A única vontade…controlar os fluxos, porque é isso que “faz ganhar as eleições”.
Assim se fabricam os imigrantes tão necessários à resolução dos problemas dos europeus referidos acima.
Depois é só conseguirem iludir as polícias de fronteiras estejam elas nos aeroportos, nas fronteiras terrestres ou a passear no Mediterrâneo ou Adriático, no Pacífico ou Atlântico, nos “veleiros” das marinhas de guerra dos diferentes países.
É só conseguirem escapar às minas colocadas entre a Turquia e a Grécia; não morrer asfixiad@s em qualquer contentor na Inglaterra, em Nápoles ou no Estado Espanhol; não ser em assassinad@s por um qualquer polícia por parecer um perigoso terrorista, como se não bastasse já parecer (e ser) imigrante; saltar os muitos muros que se vão construindo sejam nos EUA ou Em Ceuta e Melilla; não estorricar num deserto ou não enregelar ou asfixiar num qualquer avião. Até há bem pouco tempo as corvetas italianas (sim, as do país do Sr. Frattini) entretinham-se a abalroar barcos transportando centenas de imigrantes que a única coisa que pretendiam, além de escapar a uma vida miserável, era poder contribuir para o salário do próprio Sr Frattini.

Que Integração? Que direitos?

Mesmo assim, mais de 25 milhões de imigrantes conseguiram atingir os seus objectivos: estar a trabalhar e a VIVER numa Europa que necessita deles mas lhes dificulta ao máximo a sua existência!
No Conferência do Hotel Sheraton desta semana, os discursos dos responsáveis governamentais eram de tal maneira economicistas, que foi preciso vir o Min. do Trabalho e Solidariedade Social do Estado Espanhol lembrar que”é verdade que necessitamos de imigrantes mas…recebemos seres humanos.” Já o representante do Parlamento Europeu, também do Estado Espanhol, tinha monstrado sérias preocupações pela regularização dos imigrantes sem papéis.

Dizia Sócrates que uma “política de imigração abrangente” devia assentar em “três pilares” – “a promoção da imigração legal e a regularização dos fluxos migratórios; a integração dos imigrantes nas sociedades de acolhimento e a cooperação para o desenvolvimento dos países de origem”.

Mas as leis que a EU tem aprovado só têm servido para promover a imigração sem documentos, alimentado as redes de tráfico de trabalhadores indocumentad@s e os fluxos nunca serão regulados por elas e sim pelo mercado, como tod@s sabemos.
Estas redes têm demonstrado saber aproveitar bem a legislação que vem sendo aprovada por esta Europa fora. Elas têm mostrado ter mais “cérebro” que os nossos legisladores e governantes, certamente por terem sabido aproveitar o “contágio” que as longas viagens (do país de origem até ao destino) permitem.

Por fim Frattini anunciou o aparecimento de uma Carta Europeia dos Direitos dos Imigrantes. Vai ser apresentada em Outubro: E vai ser discutida por quem? Os Imigrantes colaboraram na sua elaboração?

Evidentemente que não!

O Movimento imigrante e anti-racista, por iniciativa do SOS Racismo de Portugal, apresentou em 1996 (!), em Estrasburgo, uma Carta que foi sendo discutida em toda a Europa, em reuniões plenárias em Paris (1999) e Madrid (1999), distribuída (2000), na reunião preparativa do Conselho da Europa da Conferência Mundial de Durban (2001) Contra o Racismo. Esta mesma Carta foi aprovada no 2º Congresso da Rede Anti-Racista (RAR), em Lisboa.. Foi também aprovada na 2ª Assembleia Geral da European Network Against Racism (ENAR) em Bruxelas.

Claro que isto é democracia a mais para quem só agora chegou à classificação de SERES HUMANOS!